Série "Entre Écrans e Silêncios " - Parte 3 — Orwell Tinha Razão (Só Não Sabia Como Seria o Telemóvel)
Disciplinar, seduzir, simular: as formas contemporâneas de controlo
Ambiente Sonoro sugerido (para ouvir enquanto lê): Prelude for Meditation (Arvo Pärt) — notas limpas, contemplativas; ou The Disintegration Loops (William Basinski) — eco assombrado do tempo, memória, distopia silenciosa.
O debate sobre as formas modernas de controlo social raramente se dá fora do campo da tecnologia. A evolução digital não é apenas uma questão de inovação ou comodidade; trata‑se, antes de mais, de um novo regime de poder, onde vigilância e sedução se tornam os dois polos de uma mesma lógica operativa.
É neste contexto que as obras de George Orwell e Aldous Huxley adquirem renovada pertinência. Ambas anteciparam realidades de dominação — distintas, mas não mutuamente exclusivas. Em 1984, Orwell descreve uma sociedade onde o controlo é exercido através da repressão, da vigilância totalitária e da destruição sistemática da linguagem. Já em Admirável Mundo Novo, Huxley desenha uma distopia na qual a opressão não se exerce pela força, mas pela produção de prazer e pela dissimulação do pensamento crítico sob o véu do entretenimento e da gratificação permanente.
A realidade contemporânea parece ter absorvido ambas as lógicas. O que hoje caracteriza o ambiente digital é uma forma de controlo que já não impõe, mas induz. Já não se fundamenta na proibição, mas na saturação. O sujeito não é vigiado à força — é estimulado a expor‑se voluntariamente. A eficácia deste modelo reside precisamente na sua invisibilidade.
O controlo digital já não oprime. Seduz. E essa sedução é funcional ao sistema.
O dispositivo móvel — o telemóvel — torna‑se, aqui, o instrumento paradigmático desta nova fase: um objeto de uso quotidiano, mas que carrega consigo uma arquitetura de vigilância constante, microgestão da atenção, engenharia comportamental e programação afetiva. Trata‑se de uma forma de biopoder que opera não contra o sujeito, mas a partir dele.
Byung‑Chul Han descreve este fenómeno como a passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho e da transparência. Não há mais paredes, censura ou interditos: há, sim, exposição, partilha e hipercomunicação. Tudo é permitido — desde que seja visível, quantificável e capitalizável.
O “Big Brother” já não precisa de nos observar à força — ensinou‑nos a vigiar‑nos uns aos outros.
É neste ponto que a intuição de Orwell se cruza com a crítica de Huxley. A sociedade atual parece menos ameaçada pela repressão explícita e mais pelo conforto anestesiante da hiperestimulação. A liberdade é corroída não pela proibição, mas pela irrelevância. O sujeito sente‑se livre — mas já não formula perguntas. Sente‑se informado — mas já não pensa. Sente‑se autónomo — mas os seus gestos foram antecipados por algoritmos invisíveis.
Não é necessário silenciar o sujeito contemporâneo. Basta que este deixe de ter algo a dizer.
A erosão da linguagem — problema central em Orwell — mantém‑se, mas sob outras formas: frases simplificadas, comunicação visual padronizada, reações emotivas substituem o discurso articulado. A gramática da interação é mediada por interfaces cujo objetivo é maximizar o envolvimento, não o pensamento.
Neste quadro, o problema da liberdade torna‑se mais complexo. Não é a sua ausência que assusta — é a sua simulação. A sociedade digital oferece um número ilimitado de escolhas dentro de sistemas fechados. Escolhemos, mas dentro dos parâmetros da previsibilidade. Expressamo‑nos, mas nos moldes permitidos pelas plataformas. Partilhamos, mas em formatos que reforçam a visibilidade e não a profundidade.
A distopia do nosso tempo não chegou com violência. Chegou com conveniência.
Esta nova forma de poder é mais difícil de identificar, precisamente porque coincide com os nossos desejos. É um controlo consentido, desejado, incorporado. Já não há resistência exterior — porque o exterior praticamente desapareceu. Tudo se tornou interface.
Conclui‑se, assim, que Orwell e Huxley não estavam em desacordo — estavam ambos certos, mas incompletos. O que vivemos hoje é uma síntese: vigilância algorítmica e prazer como controlo. Repressão e sedução. Medo e dopamina.
A questão não é apenas o que estamos a fazer com a tecnologia. É o que ela está a fazer connosco — e o que deixámos de ser capazes de pensar, por estarmos sempre disponíveis.
Manuela Ralha
Bibliografia desta parte:
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Huxley, A. (2019). Admirável mundo novo (M. Serras, Trad.). Saída de Emergência.
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Orwell, G. (2019). 1984 (P. Faria, Trad.). Antígona.
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Han, B.-C. (2016). A sociedade da transparência. Relógio D’Água.

Um ensaio poderoso e inquietante, que mostra como a nossa liberdade hoje não se perde pela força, mas pelo fascínio, ajuda-nos a perceber que a maior ameaça não é já o silêncio imposto, mas a distração permanente que nos impede de pensar. Não nos podemos distrair!
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