Reflexão de fim de dia com muito cansaço: A caverna, o populismo e os paraquedistas do costume
Platão, se soubesse o que o esperava, tinha registado a metáfora da caverna como patente intelectual. O homem explicou, com toda a paciência, que há gente acorrentada desde sempre, a olhar para sombras projetadas numa parede, convencida de que aquilo é a realidade. Mal ele sabia que, no século XXI, essas sombras iam ter edição em vídeo, voz distorcida, hashtags e milhões de visualizações.
Hoje, vivemos dentro de cavernas digitais, alimentadas a algoritmos e a indignações instantâneas. As pessoas já não querem saber da realidade — querem é a sua versão preferida dela, embalada em memes e vídeos de 30 segundos. E claro, quando alguém tenta introduzir um bocadinho de complexidade na conversa, é logo acusado de ser “do sistema”, ou pior: de estar “a esconder a verdade”.
É neste cenário que o populismo aparece em grande estilo — sem soluções reais, mas com muitas certezas berradas. Não resolve nada, mas entretém. Aponta o dedo, diz que “está tudo mal” e que “eles” — uma entidade mítica que tanto pode ser o Governo, a Câmara, os professores, ou os vizinhos do lado — são os culpados de tudo. É rápido, emocional e completamente impermeável à realidade. Uma maravilha para quem não quer pensar.
Entretanto, quem anda realmente a trabalhar — professores, jornalistas sérios, investigadores, cidadãos atentos e autarcas — tem de perder tempo a desfazer estes disparates, como quem anda constantemente a apagar incêndios causados por piromaníacos intelectuais. Aqueles que lançam uma polémica qualquer numa rede social e depois desaparecem, deixando atrás de si o caos, o ruído e a indignação mal informada.
Os autarcas, então, são um caso à parte. Estão no terreno todos os dias, com orçamentos apertados, burocracia kafkiana e exigências de última hora, muitas vezes a tentarem resolver problemas reais enquanto ouvem críticas de quem nunca apareceu numa assembleia de freguesia ou numa assembleia municipal, mas tem sempre algo a dizer no Facebook. E os cidadãos atentos, esses heróis discretos, continuam a tentar manter alguma sanidade no meio da gritaria — a ler antes de partilhar, a pensar antes de reagir, e a fazer perguntas em vez de lançar acusações.
E sim, como dizia a tal frase bonita (que agora circula em imagens com monges serenos e pores-do-sol inspiradores):
“Para resolver um problema, é necessário eliminar a causa, e não apenas o sintoma.”
Mas tentar falar de causas com quem só quer berrar os sintomas mais populares do momento é como tentar explicar álgebra a um tijolo. E, infelizmente, o tijolo ainda grita mais alto.
Portanto, enquanto não se fizer um esforço sério por educar para o pensamento crítico, por reforçar a literacia mediática e por ensinar as pessoas a sair da caverna com os olhos abertos — e não com o telemóvel na mão a filmar em direto para os seguidores da sua indignação — o ciclo continua:
Desinformação ➝ populismo ➝ indignação ➝ mais desinformação ➝ mais populismo.
E no fim, lá estão eles: os de sempre, os paraquedistas da ocasião, a dizer “eu bem avisei” — depois de passarem anos calados, ou pior, aplaudir as sombras, enquanto os outros, os que realmente trabalham, continuam a tentar manter acesa uma luz no fundo da caverna.
Manuela Ralha

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