Crónica – Caminhos de Paz
Há datas que não servem para decorar o calendário; servem para nos acordar. O Dia Internacional da Paz é uma dessas datas. O lema da ONU para 2025 — “Agir agora por um mundo pacífico” — não é um apelo brando. É um grito.
Vivemos num tempo em que o ruído da guerra se tornou paisagem de fundo. Guerras longas, cruéis, de que já quase não se fala, porque a repetição anestesia. Povos inteiros varridos da terra, culturas apagadas, crianças a crescer entre escombros. E nós, a ver. A ver, a deslizar o dedo no ecrã, a seguir adiante.
A paz não é ausência de armas; é presença de justiça, de dignidade, de memória. Sem ela, o silêncio é apenas o intervalo entre duas violências. A Carta Universal dos Direitos Humanos continua a ser o nosso mapa mais preciso. Cada artigo é uma lembrança de que a vida de uma só pessoa tem o mesmo valor que a de uma nação inteira. Quando esquecemos isto, abrimos espaço para a barbárie.
Hannah Arendt escreveu que “a promessa, tal como o perdão, é a única forma de nos mantermos ligados ao futuro”. Prometer paz é amarrar a nossa existência a algo maior do que o medo. É escolher a dificuldade do diálogo em vez da facilidade da vingança.
Nelson Mandela mostrou que o perdão é força e não fraqueza: “O perdão liberta a alma, remove o medo. É por isso uma arma tão poderosa.” E Maya Angelou recorda-nos: “Perdoa toda a gente. É um dos maiores presentes que podes dar a ti próprio.” Palavras que parecem simples, mas que pedem uma coragem quase sobre-humana.
O que fazer, então? Começar perto. Na forma como ouvimos quem discorda, na maneira como tratamos quem é invisível, no cuidado com a linguagem que escolhemos. A paz não é feita apenas em conferências diplomáticas; é tecida no quotidiano — em cada gesto de escuta, em cada recusa do ódio, em cada defesa dos direitos humanos.
Hoje, ao escrever, penso nos que já não podem prometer nada. Nos que perderam tudo, menos a esperança. Penso também em nós, que ainda podemos agir. Que as nossas ações pela paz ressoem mais alto do que as palavras, que a memória dos que sofreram nos impeça de adormecer.
A paz não é um destino. É caminho que se faz caminhando — com passos pequenos, mas firmes. É essa a nossa tarefa. Hoje, e todos os dias
Manuela Ralha

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© Manuela Ralha