Crónica - O desafio de agir num mundo de espectadores
“Se fazer fosse tão fácil como saber o que é certo fazer, capelas seriam igrejas e as cabanas dos pobres, palácios de príncipes.” — escreveu William Shakespeare no Mercador de Veneza. Quatro séculos depois, esta frase continua a ecoar no coração das nossas sociedades. Porque, se nunca foi tão fácil opinar, nunca foi também tão raro agir.
Vivemos tempos em que a palavra não é apenas livre — é imediata. Bastam alguns segundos, um telemóvel na mão e qualquer pessoa pode gritar, vociferar ou lançar sentenças definitivas a partir do conforto de um ecrã. Não é preciso pensar, ponderar ou ter conhecimento de causa. E, sobretudo, não é preciso fazer.
A crítica é legítima e necessária numa democracia. Mas há uma diferença entre criticar e destruir. Entre discordar e denegrir. Hoje, demasiadas vozes escondem-se atrás do anonimato digital para atacar aqueles que — com todos os erros e imperfeições — se levantam e fazem. E o pior é que é fácil ser embalado e apoiar aqueles que gritam muito, mas sem substância, sem caminhos e sem soluções. É sempre mais simples apontar o dedo do que estender a mão.
A facilidade com que se escreve um comentário azedo não encontra paralelo na dificuldade real de construir algo de útil. Difícil é colocar as mãos na massa, suportar a crítica, enfrentar a complexidade, lidar com a frustração e, ainda assim, avançar.
Se a mesma energia que muitos investem em destruir fosse canalizada para criar, quantas “capelas” se tornariam “igrejas”, quantas “cabanas” se converteriam em “palácios de príncipes”? O que falta não é inteligência para saber o que seria bom; é coragem e compromisso para o realizar.
No fim, as sociedades mudam pelo trabalho de quem faz e pela voz de quem constrói. Palavras que inspiram e mobilizam são tão transformadoras quanto a ação que as segue. O desafio é não ficar na plateia, mas escolher, com coragem, estar no lado de quem age — e saber distinguir a verdade da ilusão que engana, da comédia de enganos que paralisa.
Manuela Ralha

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