Crónica| TODOS OS NOMES

Há um país onde todos os nomes cabem. Onde o “Amin” e o “João” partilham a mesma mesa da escola, onde a “Fátima” e a “Maria” têm a mesma carteira de cidadão com o mesmo número, a mesma fotografia com a franja torta ou o cabelo entrançado. Há um país onde se acredita que a dignidade humana não se mede pelo tom de pele, pelo sotaque dos pais ou pelo bairro onde se dorme.

Mas este país parece ter sido atraiçoado por quem se entretém a fazer listas de nomes de crianças, julgando que esses nomes contam a história toda. E não contam. Porque cada nome transporta um sonho, um momento de esperança, um dia de alegria no registo, e ninguém, num país democrático, tem o direito de pegar nesses nomes para construir tabelas de ódio ou narrativas de medo.

O Chega decidiu listar nomes. Porque cada “nome estranho” seria, para eles, prova de que a pátria está a ser invadida por quem cá não pertence. Mas o que significa pertencer? Pertencer é ir ao centro de saúde e ter a vacina em dia. Pertencer é estar na escola, aprender a tabuada, rir nas visitas de estudo. Pertencer é viver e contribuir. E cada uma destas crianças, com todos os seus nomes, faz parte de um Portugal que é maior do que o medo de quem não sabe olhar para além de um apelido.

Há quem ache que a democracia é só o voto, mas a democracia também se mede no respeito pela dignidade humana. No silêncio que se impõe ao preconceito, na coragem de dizer não à iniquidade, na recusa de humilhar crianças que nada pediram senão um lugar ao sol, ou à sombra de uma amoreira, aqui neste retângulo que é de todos. Nenhum político, por muito que grite, tem o direito de transformar a vida das crianças em munição ideológica. Nenhum deputado, por muito que se ache patriota, tem a legitimidade de erguer uma parede de nomes como quem ergue um muro para separar “os nossos” dos “outros”.

Quando os portugueses emigraram, também levaram novas sonoridades, novos cheiros e diversidades às escolas e aos países onde chegaram. Também eles foram os “nomes estranhos” nas pautas, os apelidos difíceis de pronunciar, os filhos de quem vinha de longe para trabalhar e recomeçar. Também os filhos dos portugueses enriqueceram as escolas e as praças alheias, com palavras que vinham do Minho ou do Alentejo, com merendas de pão com chouriço e um sotaque que se misturava nos recreios. E muitos desses filhos tornaram-se cidadãos plenos nos países que os acolheram, sem precisarem de se envergonhar do nome que traziam.

O nome do meu pai é Gutemberg, e nasceu em Portugal. Podia não o ser, e não faria diferença nenhuma, porque é um ser humano – e todos os seres humanos são legais. Nenhuma fronteira, nenhum preconceito, nenhum partido tem o direito de determinar quem merece existir plenamente. Porque a legalidade maior é a da dignidade, que nos faz a todos iguais em valor.

Todos os nomes são nossos, porque todas as crianças são nossas. Ninguém fica de fora quando se constrói um país decente. E não há país que se queira livre que se construa em cima da humilhação dos pequenos.

Ficar calado, quando se listam nomes de crianças para alimentar o medo, é permitir que se retirem direitos sem barulho. E, um dia, quando nos baterem à porta, não sobrará ninguém para lembrar que os nomes não contam tudo – mas contam que somos, todos, humanos.

Todos os nomes cabem. Que ninguém se atreva a negar isso em nome da democracia.

Manuela Ralha 




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