"Há um cansaço da inteligência abstrata…" (Artigo de opinião)

“Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar da alma.”

— Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa)

Há um tipo de exaustão que não se explica com o número de horas trabalhadas nem com a carga física das tarefas do dia. É um cansaço mais fundo, mais denso. Um esgotamento que nasce de ver, dia após dia, o espaço público ser invadido por discursos ocos, pela mentira sistemática, pela intolerância disfarçada de firmeza — como se tudo valesse, desde que se conquiste atenção.

Para quem se dedica, com sentido de responsabilidade, ao trabalho público, à intervenção cívica ou à política com seriedade e compromisso, este ambiente é profundamente desgastante. Torna-se difícil continuar a construir quando o ruído da destruição, da suspeita e da maledicência se sobrepõe a tudo o resto.

Já escrevi — e continuo a sentir — que a intolerância é filha da ignorância, como bem assinalou Voltaire. E nos dias que correm, cada comentário falso, cada insinuação maldosa, cada ataque pessoal gratuito, só vem confirmar essa perceção. A empatia parece ter desaparecido do vocabulário coletivo, substituída por uma violência verbal constante que não esclarece, apenas destrói. A verdade tornou-se opcional, e a má-fé, uma arma política.

O mais grave é que, em tempos de propaganda política, esta realidade intensifica-se. O debate degrada-se. A honestidade torna-se quase um ato subversivo. É nestes momentos que se torna urgente afirmar, com toda a clareza: em política, não vale tudo.

A política deve ser feita com ideias, com propostas concretas, com visão e responsabilidade. Não pode ser apenas palco para narrativas fabricadas, para jogos de aparência, para slogans vazios. Quando isso acontece, quem verdadeiramente trabalha — com ética, com rigor, com respeito — é empurrado para o silêncio ou para a desistência. E é esse o cansaço mais perigoso de todos: o que atinge a consciência, o que esgota a alma, o que corrói a esperança.

Há quem confunda barulho com coragem e agressividade com convicção. Mas a coragem está, muitas vezes, em resistir ao ruído. E a verdadeira convicção vê-se na capacidade de dialogar com respeito, de construir com consistência e de agir com verdade.

Este cansaço de que falo não é apenas pessoal. É coletivo. E talvez seja nele que resida, paradoxalmente, uma oportunidade: a de recuperar o sentido do essencial, de recentrar o debate político naquilo que importa — as pessoas, a justiça, o bem comum.

Porque, apesar do ruído, a verdade continua a ter peso. E a consciência tranquila, mesmo cansada, continua a ser o melhor lugar de onde se fala.

Manuela Ralha

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