CRÓNICA | Dia Mundial da População: Um mundo justo nasce das famílias que desejamos construir

Hoje, 11 de Julho, Dia Mundial da População, lembramos que a demografia é um reflexo das escolhas, dos sonhos e das oportunidades que cada pessoa tem ao longo da vida. O lema deste ano, «Capacitar os jovens para criarem as famílias que desejam num mundo justo e cheio de esperança», desafia-nos a olhar para o futuro com seriedade e compromisso.
Nos países mais envelhecidos, como Portugal, fala-se frequentemente em crise de fertilidade como se fosse apenas um número a corrigir. Mas a verdadeira crise está na distância entre o número de filhos que as pessoas desejam ter e o número que conseguem efetivamente ter. Muitos jovens continuam a adiar o desejo de constituir família porque não conseguem ter uma casa, porque vivem em empregos precários, porque não têm acesso a creches, porque não possuem a segurança mínima que lhes permita planear o amanhã.
As respostas políticas que têm sido implementadas falham, muitas vezes, porque ignoram as necessidades reais das pessoas. Não se trata de empurrar as mulheres a ter filhos para resolver as estatísticas, mas sim de criar condições para que cada pessoa possa escolher quando e quantos filhos deseja ter, com liberdade, dignidade e esperança.
Capacitar os jovens para criarem as famílias que desejam exige habitação acessível, permitindo que os jovens possam sair de casa dos pais e construir os seus próprios projetos de vida. Exige empregos dignos e estáveis, que ofereçam segurança e permitam planear o futuro. Exige cuidados de fertilidade acessíveis a todos, garantindo o direito ao planeamento familiar independentemente da condição económica. Exige políticas familiares efectivas, com licenças parentais justas, horários de trabalho compatíveis com a vida em família e flexibilidade no local de trabalho. Exige uma rede de apoio às famílias com crianças pequenas, através de creches e escolas de qualidade, acessíveis a todos. Exige o combate às normas sexistas que limitam as escolhas das mulheres e sobrecarregam os homens com papéis rígidos, impedindo ambos de realizar os seus projectos de vida em igualdade. Exige o reconhecimento e a protecção de todas as formas de família, garantindo igualdade de direitos a todas as pessoas, independentemente das suas escolhas. E exige, acima de tudo, a redução das desigualdades entre os países mais ricos e os países mais pobres, pois em muitas partes do mundo a maternidade ainda é forçada, a pobreza limita escolhas e a migração torna-se a única saída para sobreviver.
Capacitar os jovens para criarem as famílias que desejam é também lutar por justiça intergeracional. É permitir aos jovens de hoje construir vidas com sentido, num mundo que respeite os seus projetos de vida e a sua liberdade de escolha. Cada criança desejada nasce num espaço de amor, mas também de condições que permitam cuidar dela com dignidade. A demografia não se resolve com incentivos isolados ou campanhas de natalidade sem substância, mas sim com políticas estruturadas que reconheçam a dignidade de cada pessoa e a necessidade de garantir que a esperança seja um direito, e não um luxo.
Neste Dia Mundial da População, é urgente questionar que mundo estamos a construir para os jovens, que escolhas estamos a permitir que façam sobre as suas famílias e se estamos realmente a caminhar para um mundo justo e cheio de esperança ou a adiar o futuro coletivo.
As famílias que desejamos construir precisam de condições, de políticas públicas justas e de esperança. Porque um futuro justo, inclusivo e com dignidade constrói-se hoje, com escolhas que coloquem as pessoas no centro.
Manuela Ralha 



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