Artigo de Opinião “O medo é que faz que não vejas…” – Sobre o medo e a coragem de mudar o mundo
"O medo é que faz que não vejas, nem ouças porque um dos efeitos do medo é turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas outras do que são!"— Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha
Vivemos tempos sombrios. Tempos em que o medo se disfarça de prudência, se mascara de bom senso e se instala, silencioso, nas entrelinhas da nossa vida coletiva. Como escreveu Cervantes há mais de quatro séculos, o medo tem o poder de turvar os sentidos, de distorcer a realidade e de nos fazer ver monstros onde há apenas pessoas, ameaças onde há diferenças, perigos onde há esperança.
Hoje, como ontem, o medo é uma arma poderosa — usada para nos calar, para nos dividir, para nos fazer acreditar que é melhor não agir, não protestar, não sonhar. Que é perigoso levantar a voz. Que é arriscado defender quem está do lado de fora. Que é ingénuo acreditar na justiça ou lutar pela liberdade.
Mas é precisamente esse medo que nos torna reféns de um mundo injusto.
O medo impede-nos de ver o sofrimento dos outros como espelho do nosso. Faz-nos aceitar a exclusão como normal, a violência como inevitável, a desigualdade como consequência. Faz-nos olhar para o lado quando devíamos enfrentar. E, sobretudo, faz-nos calar quando o silêncio é a pior escolha.
Porque a liberdade, a justiça e o bem comum não são dádivas — são conquistas. Conquistas feitas por quem ousa ver com clareza, ouvir com atenção e agir com coragem. Por quem não se resigna. Por quem entende que o maior perigo não é lutar e perder — é nada fazer e assistir, quieto, à perda de tudo aquilo que torna uma sociedade digna.
Cervantes, ao dar vida a Dom Quixote, não nos falava apenas de ilusões. Falava-nos de coragem. De não aceitar o mundo tal como ele é. De lutar contra os "moinhos" que se erguem como gigantes: o conformismo, o cinismo, a indiferença.
Hoje, mais do que nunca, precisamos de quixotes contemporâneos — homens e mulheres que desafiem os ventos do medo com a força da ética, da razão e da empatia. Que vejam, que oiçam, que resistam. Que saibam que mudar o mundo começa por recusar ver as coisas como “sempre foram” e por ousar imaginá-las como podem ser.
E eu escolho a coragem.
Manuela Ralha

Estas palavras são um grito de coragem em tempos de medo, lembram que o silêncio nunca é solução.
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