Crónica | Dia Internacional da Igualdade Feminina

“Não se nasce mulher: torna-se mulher.” — Simone de Beauvoir

A frase de Beauvoir continua a ecoar, décadas depois, como um aviso e uma denúncia. Ser mulher não é apenas uma condição biológica, é um processo social, cultural e político. E, ainda assim, neste Dia Internacional da Igualdade Feminina, é preciso reconhecer: não partimos todas da mesma linha de partida.

Há mulheres cujas trajetórias estão marcadas por barreiras múltiplas — pobreza, cor da pele, origem social, orientação sexual, território de pertença. E há, sobretudo, mulheres cuja voz permanece quase invisível: as mulheres com deficiência intelectual.

Estas mulheres vivem no limiar mais baixo do respeito pelos direitos. Não porque lhes falte humanidade, mas porque a sociedade insiste em lhes negar humanidade plena. Muitas vezes não acedem a uma educação digna, são infantilizadas ao longo da vida, privadas de autonomia, ignoradas nas decisões que lhes dizem respeito. Tornar-se mulher, nesse contexto, torna-se um percurso quase impossível: sem acesso a direitos, sem possibilidade de autodeterminação, sem espaço de reconhecimento social.

Neste dia, enquanto celebramos conquistas históricas da luta feminista, temos a obrigação ética e política de lembrar que a igualdade não é uniforme. As lutas feministas só se cumprem quando se tornam interseccionais, quando abraçam todas as mulheres — também as que não têm palco, também as que não têm voz audível, também as que estão à margem.

Porque a igualdade não se mede pelas vitórias das mais visíveis, mas pela dignidade reconhecida às que permanecem invisíveis. E, neste dia, o mais justo seria afirmar sem hesitações: não somos todas iguais, mas temos todas direito a sê-lo.

Manuela Ralha

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