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A mostrar mensagens de fevereiro, 2026

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - III ANDAMENTO — POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS - 7 — Vidas em trânsito, direitos suspensos

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  Legenda Imagem:  No interior do círculo, as vidas em trânsito não são números nem fluxos abstratos — são rostos, travessias, esperas e documentos suspensos. A luz central não promete chegada fácil; ilumina apenas o movimento contínuo entre fronteiras, trabalho precário e pertença adiada. Aqui, a mobilidade revela a desigualdade do mundo e expõe a vulnerabilidade como condição politicamente administrada. Ambiente sonoro: III Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Comodo. Scherzando)  7 — Vidas em trânsito, direitos suspensos Diálogo com Rosana Baeninger e Hein de Haas Migração, trabalho e desigualdade global A mobilidade humana não é exceção histórica. É uma constante. O que muda são as condições sob as quais ela ocorre, os regimes que a regulam e os direitos que a acompanham — ou a suspendem. A migração contemporânea não pode ser lida apenas como movimento físico de pessoas entre territórios; é também deslocação entre regimes de proteção, entr...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - III ANDAMENTO — POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS - INTERLÚDIO III — Quando a vulnerabilidade ganha rosto

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  Legenda Imagem:  No centro, uma luz instável articula rostos e trajetórias que não se confundem. À sua volta, cenas fragmentadas evocam migração, juventude exposta, doença desigual, pobreza infantil, deficiência, envelhecimento e racialização — não como categorias abstratas, mas como experiências vividas. A composição circular mantém a unidade do ciclo, mas abandona a segmentação rígida: a vulnerabilidade ganha rosto quando a estrutura se inscreve na biografia. Ambiente sonoro: III Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Comodo. Scherzando) INTERLÚDIO III — Quando a vulnerabilidade ganha rosto A passagem das estruturas às vidas concretas. Até aqui, a vulnerabilidade foi pensada como condição e como estrutura. Como corpo comum. Como desigualdade produzida. A partir deste ponto, ela ganha rosto. Ganha nome, história, território, idade, estatuto jurídico. Deixa de ser apenas um conceito ou um mecanismo social e passa a ser experiência vivi...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - II ANDAMENTO –DESIGUALDADE - A produção social da vulnerabilidade - 6 — Quando a desigualdade se transforma em fragilidade social

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  Legenda Imagem:  No interior da arquitetura circular do II Andamento, a desigualdade deixa de surgir como mera diferença de posição e revela-se como processo cumulativo de desgaste. A balança, suspensa sobre uma fenda que atravessa o solo, já não simboliza apenas desequilíbrio económico, mas a erosão progressiva das condições de vida. À esquerda, a pobreza persistente e a precariedade laboral inscrevem-se num território árido, onde o risco se torna rotina; à direita, a proteção insuficiente e o privilégio revelam a assimetria na capacidade de absorver choques. No centro inferior, as raízes expostas condensam a ideia de fragilidade social: não uma rutura súbita, mas um enfraquecimento lento e estrutural das bases que sustentam a dignidade. Ambiente sonoro: II Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Tempo di Menuetto)  6 — Quando a desigualdade se transforma em fragilidade social Diálogo com Luís Capucha (via obras coletivas) Pobreza persistente, exc...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - II ANDAMENTO –DESIGUALDADE - A produção social da vulnerabilidade - 5 — Desigualdade não é acidente

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Legenda Imagem:  No interior da composição circular, a fissura vertical deixa de ser rutura ocasional e revela-se como arquitetura. A balança inclinada não denuncia um acidente, mas uma organização persistente do desequilíbrio. De um lado, a acumulação e a transmissão; do outro, a compressão estrutural. A imagem traduz a tese do Ensaio 5: a desigualdade não emerge do acaso, mas de mecanismos históricos que reproduzem vulnerabilidade ao longo do tempo. Ambiente sonoro: II Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Tempo di Menuetto)  5 — Desigualdade não é acidente Diálogo com Thomas Piketty Riqueza, herança, educação e reprodução das desigualdades. A desigualdade é frequentemente apresentada como um efeito colateral inevitável do crescimento económico ou como o resultado de diferenças individuais de mérito, talento e esforço. Esta narrativa é confortável, porque desresponsabiliza. Mas é falsa. A desigualdade não é um acidente histórico nem um desvio pass...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - II ANDAMENTO –DESIGUALDADE - A produção social da vulnerabilidade - INTERLÚDIO II — Quando o comum se torna desigual

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  Legenda Imagem: A estrutura circular revela agora a vulnerabilidade como campo distribuído: o corpo permanece no interior da composição, mas é atravessado por forças económicas, sociais e políticas que organizam proteção e risco. O centro luminoso deixa de ser apenas condição ontológica e torna-se espaço de decisão coletiva. A imagem traduz a passagem do comum ao desigual, eixo inaugural do II Andamento. Ambiente sonoro: II Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Tempo di Menuetto) INTERLÚDIO II — Quando o comum se torna desigual Da vulnerabilidade ontológica à vulnerabilidade distribuída. A vulnerabilidade começa como condição comum. Mas não permanece comum. O corpo, que no início expõe todos de forma semelhante à finitude, à dependência e ao acaso, é rapidamente atravessado por diferenciações que não são naturais nem inevitáveis. A partir de determinado ponto, a vulnerabilidade deixa de ser apenas aquilo que partilhamos enquanto humanos e passa...

Dia Mundial da Justiça Social

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  Dia Mundial da Justiça Social 20 de fevereiro A 20 de fevereiro assinala-se o Dia Mundial da Justiça Social , instituído pela Resolução 62/10 da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 26 de novembro de 2007. A data não é meramente simbólica. É uma afirmação política e ética: não há paz sustentável sem justiça social, e não há justiça social sem respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. Desde a sua fundação, a ONU tem sido clara: o desenvolvimento social é condição de estabilidade dentro e entre nações. A paz não se constrói apenas com diplomacia ou segurança; constrói-se com igualdade de oportunidades, com acesso a direitos, com instituições que não deixam ninguém para trás. Em 2008, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) deu um passo decisivo ao adotar a Declaração sobre Justiça Social para uma Globalização mais Justa . Num mundo atravessado por transformações económicas aceleradas,...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - I ANDAMENTO – CORPO — 4 — O corpo que falha

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  Legenda Imagem: O corpo permanece no centro, mas a luz já não é promessa de superação: é consciência do limite. Os anéis que o envolvem não são perfeitos; insinuam desgaste, erosão, tempo. A imagem traduz o núcleo do Ensaio 4: a falha não como acidente, mas como estrutura da existência — finitude partilhada cuja gestão, essa sim, é socialmente diferenciada . Ambiente sonoro: I Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Kräftig. Entschieden)  4 — O corpo que falha Finitude, doença, envelhecimento e limite. Diálogo com Paul Ricoeur (em articulação com Butler e Dentz) O corpo falha. Não como acidente excepcional, mas como estrutura permanente da existência. A modernidade tardia construiu a fantasia de um corpo permanentemente melhorável — monitorizado, corrigido, aperfeiçoado. O discurso da saúde como performance deslocou o limite para o campo da gestão técnica. Contudo, a falha não é erro do sistema; é condição da vida. A finitude não é patologia...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - I ANDAMENTO – CORPO — 3 — A singularidade ferida

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  Legenda Imagem: O corpo permanece recolhido no centro, agora marcado por fissuras e sombras que evocam a inscrição da experiência. Os anéis luminosos não anulam a ferida; circundam-na, como memória estrutural que persiste. A imagem traduz a tese do Ensaio 3: a vulnerabilidade é comum na condição, mas singular na marca — cada vida encarna de modo irrepetível a tensão entre exposição ontológica e história biográfica. Ambiente sonoro: I Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Kräftig. Entschieden)  3 — A singularidade ferida Diálogo com René Dentz Trajetórias biográficas, trauma e vulnerabilidade como marca singular. A vulnerabilidade é comum. Mas a ferida é singular. Se o primeiro ensaio afirmou a vulnerabilidade como condição ontológica e o segundo interrogou a sua visibilidade social, este terceiro movimento desloca o foco para o lugar onde a vulnerabilidade se inscreve: a biografia concreta. A vulnerabilidade é universal na estrutura, mas s...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - I ANDAMENTO – CORPO — 2 — A coragem de ser visto

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  Legenda Imagem: O corpo permanece no centro, mas agora sob uma luz mais intensa: não apenas exposto, mas visível. Os anéis luminosos não o isolam; amplificam o olhar que sobre ele incide. A imagem traduz a tensão do Ensaio 2: a coragem de se mostrar vulnerável num campo onde a fragilidade é sempre interpretada — podendo ser acolhida ou desqualificada. Ambiente sonoro: I Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Kräftig. Entschieden)  2 — A coragem de ser visto Diálogo com Brené Brown Vergonha, autenticidade e ligação humana. Se a exposição é condição, a visibilidade é decisão. Se no ensaio anterior afirmámos que a vida começa exposta, aqui entramos numa segunda camada: a vulnerabilidade não é apenas condição; é também experiência socialmente mediada. A exposição ontológica é inevitável, mas a visibilidade da fragilidade não o é. Mostrar vulnerabilidade é um gesto situado, regulado por normas, atravessado por relações de poder e por expectat...

Diálogos sobre Vulnerabilidade : A Vulnerabilidade como Estrutura Ontológica na Obra de José Luís Peixoto

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  Ambiente sonoro: Arvo Pärt — Spiegel im Spiegel Sugestão: ativar a música antes de começar. A repetição mínima e a lentidão criam um espaço de pensamento — como espelho no espelho, a vulnerabilidade reflete-se em camadas sucessivas. A Vulnerabilidade como Estrutura Ontológica na Obra de José Luís Peixoto Ao escrever os Diálogos sobre a Vulnerabilidade , fui resgatar um olhar que me acompanha há anos: a leitura de José Luís Peixoto como quem percorre uma mesma interrogação sob múltiplas formas narrativas. Não uma pergunta temática, mas estrutural — o que significa existir enquanto ser exposto? Este ensaio nasce desse reencontro. Ao aprofundar a vulnerabilidade como condição ontológica, reconheci que a obra de Peixoto já desenhava essa cartografia, livro após livro, sob diferentes inscrições da mesma fragilidade constitutiva. Não se trata de recorrência temática, mas de coerência estrutural. Ler estes romances em conjunto é perceber que não são histó...

A Montanha: a vulnerabilidade quando deixa de ser abstração Leitura crítica de A Montanha, de José Luís Peixoto

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Ambiente sonoro: Valentin Silvestrov — Silent Songs Sugestão: deixar o álbum a ecoar enquanto lê. A música cria uma escuta interior que aproxima o texto do silêncio que o atravessa. A Montanha: a vulnerabilidade quando deixa de ser abstração Leitura crítica de A Montanha , de José Luís Peixoto À medida que escrevo os Diálogos sobre a Vulnerabilidade , li A Montanha , de José Luís Peixoto. Não o li apenas como romance; li-o como gesto ontológico. Porque aquilo que tenho vindo a pensar conceptualmente — a vulnerabilidade como estrutura constitutiva da condição humana — encontra nesta narrativa a sua inscrição concreta, biográfica e corporal. I. A doença como revelação ontológica A Montanha não é um romance sobre a doença enquanto episódio clínico. É um romance sobre a doença enquanto desocultação. O tumor não surge apenas como acontecimento biológico; surge como rasgão na ilusão de continuidade que sustenta a vida quotidiana. O corpo, na normalida...

Diálogos sobre a Vulnerabilidade - I ANDAMENTO – CORPO — 1 — Ser exposto antes de escolher

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  Legenda Imagem: Um corpo recolhido no centro de anéis luminosos, atravessado por veios que o ligam ao mundo. Não é isolamento — é exposição. Antes da escolha, antes da autonomia, há esta condição comum de vulnerabilidade que o I Andamento procura pensar. Ambiente sonoro: I Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Kräftig. Entschieden)  1 — Ser exposto antes de escolher Diálogo com Judith Butler Vulnerabilidade física e social, precariedade das vidas e resistência. Se o Interlúdio afirmou que a condição humana começa na vulnerabilidade, este ensaio assume essa afirmação como ponto de partida teórico. A vida humana inicia-se na exposição. Não numa autonomia plena, não numa identidade consolidada, mas numa condição corporal entregue à dependência. O recém-nascido não escolhe sobreviver; depende do cuidado. O adulto não se sustenta fora de redes materiais e simbólicas que o amparam. A autonomia, celebrada como fundamento da modernidade, é sempre sec...