Cheias de 1967: a lama que revelou um país afundado na miséria
As Cheias de 1967 não foram apenas uma catástrofe natural. Foram, sobretudo, uma tragédia social e política. A água caiu com fúria, mas foi a miséria que matou. Quando, na noite de 25 para 26 de Novembro, as ribeiras galgaram margens e a lama invadiu bairros inteiros, o que se revelou não foi apenas a força da natureza — foi a fraqueza de um país deixado ao abandono.
Os mortos não vieram do acaso. Vieram de barracas construídas sobre leitos de cheia, de bairros erguidos sem qualquer planeamento, de ruas sem esgotos nem drenagem, de uma cidade partida entre os que viviam dentro dos muros e os que sobreviviam fora deles. Foram os pobres que morreram — e, entre eles, os mais pobres ainda.
O Estado, ausente antes da tragédia, foi também ausente depois dela. Incapaz de prevenir, hesitou em socorrer. Mas pior do que a lentidão na resposta foi a tentativa deliberada de esconder a dimensão do desastre. O regime tentou abafar a verdade com a mesma lama que cobria corpos e ruínas. Impôs censura às notícias, reduziu os números oficiais, silenciou as vozes que gritavam por justiça.
Joaquim Letria, jovem jornalista do Diário de Lisboa, foi um dos que recusou esse silêncio. Com outros colegas, foi para o terreno. Viu a morte de perto. Contou os cadáveres, um por um, porque só assim o jornal podia publicar a verdade — com provas. Viu crianças cobertas de lama, mães abraçadas aos filhos já sem vida, bairros inteiros apagados do mapa. E denunciou. A verdade, dizia ele, não podia ficar enterrada.
Mas onde o Estado falhou, o povo respondeu. Foram os pobres que ajudaram os mais pobres. Nas ruas submersas, entre destroços, a solidariedade organizou-se sem ordens superiores. A sociedade civil — a mesma que era mantida de joelhos — levantou-se para acudir a quem nada tinha. Houve quem desse pão, quem desse abrigo, quem desse o corpo ao trabalho de resgate e reconstrução. Portugal, esse país esquecido, mostrou que tinha alma — mesmo quando o governo lhe queria calar a voz.
As Cheias de 67 não foram um simples episódio de mau tempo. Foram o reflexo brutal de um país sem justiça social, sem planeamento, sem liberdade. Um país onde se morria não só afogado, mas também de silêncio.
Hoje, lembrar as Cheias de 1967 não é apenas prestar homenagem às vítimas. É exigir memória. É recusar o esquecimento conveniente. É afirmar que a catástrofe não foi apenas meteorológica — foi política. Que a lama não cobriu apenas ruas e corpos, mas um sistema que preferia esconder do que proteger.
E é, acima de tudo, declarar com clareza: a esse país não queremos voltar. Não podemos.
Não aceitaremos nunca mais viver num país onde a pobreza mata, a censura cala e o poder se esconde atrás do medo. A memória é resistência. E a verdade, essa, não pode — nem deve — ficar enterrada.
© Manuela Ralha 2025

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