Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada
Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada é, para mim, muito mais do que uma data evocativa. É um momento que toca profundamente a minha história e a de tantos outros que, como eu, sobreviveram a um acidente, mas ficaram com a vida profundamente alterada. Fui vítima da estrada. Não perdi a vida, mas perdi partes fundamentais dela, e essa realidade acompanha-me todos os dias.
Neste dia, lembram-se todos os que partiram demasiado cedo, mas também aqueles que, como eu, continuam cá — marcados, limitados, muitas vezes esquecidos. Porque sobreviver não significa estar bem. A violência rodoviária arranca projetos, interrompe vidas e impõe lutas silenciosas e longas. Sei-o na pele. Sei o que é ter de reaprender a funcionar, reconstruir-me, lutar contra medos, dores e desigualdades que não escolhi.
Mas este dia deve servir também para olhar para aquilo que o Estado ainda não vê com a urgência necessária. Muitas vítimas sobreviventes ficam enredadas em processos judiciais intermináveis, onde as seguradoras, enquanto rés, beneficiam de uma morosidade que as favorece. No meu caso, vivi décadas dentro desse labirinto judicial, revitimizada pela própria estrutura que deveria proteger-me. Enquanto isso, as minhas necessidades económicas, médicas e humanas não podiam esperar.
É por isso que defendo — e este dia deveria sublinhar — que o Estado tem de ter um outro olhar sobre esta realidade. O acesso a prestações, direitos e apoios tem de ser célere, eficaz e justo. Uma vítima não pode passar anos ou décadas a tentar provar que merece ajuda. E quando um processo judicial é arrastado por razões que lhe são alheias, o Estado deve assumir um papel claro: financiar de imediato o apoio necessário para que a vítima não fique desamparada. Depois, o Estado que recupere o valor onde entender.
Mas que não deixe as vítimas a sobreviverem sem condições mínimas enquanto aguardam decisões que nunca chegam.
Ninguém deveria ser revitimizado por estruturas burocráticas ou por mecanismos judiciais que falham. Ninguém deveria enfrentar pobreza, abandono ou desespero quando o que mais precisa é de concentração, estabilidade e serenidade para reaprender a viver e renascer.
Este dia deve ser um apelo — forte, firme e humano — para que a sociedade e o Estado assumam o compromisso de proteger verdadeiramente as vítimas da estrada: as que partiram, as que ficaram e as que, como eu, continuam a caminhar com coragem, apesar de tudo o que perderam.
©️Manuela Ralha 2025

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