Dezembro — mês da consciência vigilante

 


Ambiente sonoro
“O Inverno” de António Vivaldi, do célebre ciclo As Quatro Estações, é uma obra que se encaixa perfeitamente no espírito de um texto que pretende ser alerta, consciência e sensibilidade.

Vivaldi – O Inverno (The Four Seasons) – Janine Jansen, Live

Porquê Vivaldi – O Inverno?
Esta peça transporta o ouvinte para uma paisagem fria, cortante, mas cheia de movimento.
Não é uma música de conforto — é de vigília.
A sonoridade inquieta dos violinos, as pausas geladas e a tensão que se acumula refletem bem o espírito deste texto:
não é contemplação passiva — é atenção ativa ao que nos rodeia.

Dezembro — mês da consciência vigilante

Chegas com frio, Dezembro.
E com esse teu jeito de apagar os dias mais cedo, como se quisesses que tudo recolhesse depressa — à casa, ao silêncio, ao balanço.

Mas este não pode ser apenas o mês das luzes nas ruas e da euforia repetida.
Nem apenas o tempo dos desejos por cumprir ou das promessas lançadas no vazio.

Dezembro traz consigo um conjunto de dias que nos exigem mais do que atenção: exigem posicionamento.
São datas que se sucedem sem alívio — sobre saúde pública, sobre dignidade, sobre desigualdade, sobre exclusão.
Não são temas de calendário simbólico: são realidades activas, urgentes, presentes.

Logo no primeiro dia, a luta contra a SIDA lembra-nos que o silêncio continua a matar.
Que os diagnósticos tardios ainda são regra e que o estigma resiste mais do que o vírus.

Logo a seguir, a chamada à abolição da escravatura força-nos a ver para além da História oficial.
A escravatura moderna está entre nós, nos corpos invisíveis que servem sistemas que preferimos ignorar.

E depois vêm a deficiência, o voluntariado, os direitos humanos.
Não como tópicos — mas como espelhos do mundo que ainda não queremos enfrentar por inteiro.

Portugal continua a liderar estatísticas que deviam envergonhar-nos — na saúde, na exclusão social, na precariedade, no abandono institucional de tantas populações.
E, em vez de agir, muitas vezes assinalamos.
Em vez de intervir, muitas vezes distraímo-nos com o ruído das festividades.

Este texto não pretende esgotar os dias — pretende anunciá-los.
Cada um será trabalhado ao seu tempo.
Mas que fique claro, desde o início, o ponto de partida:
não basta lembrar — é preciso dizer. Denunciar. Agir. Posicionar.

A consciência não é adorno de fim de ano.
Não serve para apaziguar culpas nem para justificar inércias.
A consciência, quando é real, transforma-se em palavra, em gesto, em compromisso.

A solidariedade, essa palavra tão repetida em Dezembro, não devia ser um parêntesis.
Não devia aparecer com as campanhas, com os cabazes, com as decorações.
Devia estar presente quando ninguém olha. Quando não dá jeito. Quando não rende partilhas.

Porque quem tem fome, tem fome em Março.
Quem dorme na rua, dorme em Julho.
Quem é esquecido, é esquecido o ano inteiro.

O verdadeiro compromisso não se faz com datas.
Faz-se com continuidade. Com desconforto.
Com a coragem de ver aquilo que muitos fingem não ver.

Por isso, que Dezembro não seja um alívio.
Que não sirva para sossegar consciências —
mas para as despertar.

Este mês — como todos — exige de nós atenção, lucidez e escolha.

E a escolha é sempre esta:
Ou colaboramos com o silêncio.
Ou comprometemo-nos com a verdade.

©  Manuela Ralha 2025

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