Jürgen Habermas: uma razão para acreditar na democracia
“Só são legítimas as normas que podem encontrar o acordo de todos os envolvidos num discurso racional.”— Jürgen Habermas
Com Jürgen Habermas desaparece uma das consciências intelectuais da democracia europeia.
A morte de Jürgen Habermas, aos 96 anos, representa a perda de uma das grandes consciências intelectuais da democracia europeia. Para mim — e para muitos que pensam a vida pública — desaparece também uma das vozes que, durante décadas, nos lembraram que a democracia depende da força da razão e da qualidade do debate entre cidadãos.
Ao longo de décadas, voltei muitas vezes aos seus textos. Não apenas como quem consulta um filósofo, mas como quem procura orientação num mundo frequentemente dominado pelo ruído, pela pressa e pela simplificação do debate público.
Habermas pertence àquela geração de pensadores que cresceram sob a sombra da tragédia europeia do século XX e que fizeram da filosofia uma tentativa de reconstrução moral. A pergunta que atravessa toda a sua obra é, no fundo, profundamente política e profundamente humana: como podem sociedades livres organizar-se de modo justo depois de terem conhecido a barbárie?
A resposta de Habermas nunca foi simples nem confortável. Ele acreditava que a democracia não vive apenas de instituições ou de procedimentos formais. Vive sobretudo da qualidade do diálogo entre cidadãos — da capacidade de discutir, argumentar e ouvir o outro. Da ideia exigente de que a verdade política não nasce da imposição ou da força, mas daquilo a que ele chamava o melhor argumento.
Foi esta convicção que orientou a sua teoria do agir comunicacional e a sua reflexão sobre a esfera pública. Para Habermas, uma sociedade democrática depende da existência de espaços onde as pessoas possam deliberar livremente sobre os assuntos comuns — lugares onde a opinião pública se forma não pela manipulação ou pelo poder, mas pelo debate racional entre cidadãos iguais.
Ao longo da vida, Habermas mostrou também que a filosofia não deve fechar-se na academia. Interveio nos grandes debates do seu tempo, muitas vezes com coragem e clareza moral. Escreveu sobre a memória do passado alemão, sobre os desafios da modernidade e sobre o futuro da Europa. Acreditava que o projeto europeu representava uma possibilidade histórica rara: a de substituir as rivalidades nacionais por uma comunidade política baseada no direito, na cooperação e na cidadania.
Aquilo que sempre me impressionou em Habermas não foi apenas a complexidade do seu pensamento, mas a confiança profunda que depositava na razão pública. Num tempo em que o debate político se torna frequentemente agressivo, superficial ou dominado por estratégias de poder, Habermas insistia numa ideia quase radical na sua simplicidade: a de que os seres humanos são capazes de entender-se através da linguagem e de construir juntos normas justas.
Hoje, com a sua morte, desaparece uma das grandes vozes dessa tradição intelectual europeia que via na democracia um processo vivo de aprendizagem coletiva. Mas o seu pensamento permanece. Permanece cada vez que alguém defende a importância do debate público, cada vez que se insiste que as decisões políticas devem nascer de argumentos e não de imposições, cada vez que se acredita que a democracia é, antes de tudo, uma prática de diálogo.
Talvez seja esse o legado mais profundo de Habermas: recordar-nos que a democracia não é apenas um sistema político, mas uma forma de convivência baseada na palavra, na escuta e na responsabilidade comum.
Num mundo cada vez mais fragmentado, a lição de Habermas permanece clara: as normas que governam a nossa vida comum só são verdadeiramente legítimas quando podem nascer do acordo livre entre cidadãos que discutem entre si como iguais.
© Manuela Ralha

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