Diálogos sobre a Vulnerabilidade - III ANDAMENTO — POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS - 9 — Juventudes vulnerabilizadas: quando o futuro deixa de ser promessa

 


Legenda da imagem: Representação visual das juventudes vulnerabilizadas: no centro, a figura jovem como lugar onde convergem trajetórias incertas; em redor, diferentes cenas evocam precariedade, exclusão social, pobreza infantil, sofrimento psíquico e futuros bloqueados. A composição ilustra como a vulnerabilidade juvenil é produzida por contextos sociais desiguais que limitam as possibilidades de futuro.

Ambiente sonoro: III Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Comodo. Scherzando)

 9 — Juventudes vulnerabilizadas: quando o futuro deixa de ser promessa
Diálogo com Bellenzani e Malfitano
Exclusão social, sofrimento psíquico e futuros bloqueados.

A juventude ocupa, no imaginário social contemporâneo, um lugar paradoxal. É apresentada como tempo de abertura, de experimentação e de potencial ilimitado, ao mesmo tempo que é permanentemente vigiada, avaliada e responsabilizada. Espera-se flexibilidade, adaptação contínua e disponibilidade para a mudança, mas raramente se interrogam as condições concretas em que essas exigências são colocadas. Quando a vulnerabilidade se instala cedo, o futuro deixa de ser promessa e transforma-se num horizonte incerto, por vezes bloqueado.

A vulnerabilidade juvenil não resulta de uma falha individual nem de um desvio biográfico. É produzida na intersecção entre precariedade material, fragilidade institucional e ausência de reconhecimento social. Muitos jovens entram na vida adulta sem margem para errar, experimentar ou recomeçar. Aquilo que é socialmente apresentado como fase de transição transforma-se, para alguns, numa travessia prolongada sem garantias mínimas de estabilidade.

Neste ponto, o diálogo com Ricardo Bellenzani e Ana Paula Serrata Malfitano permite aprofundar a compreensão da juventude vulnerabilizada enquanto condição socialmente produzida. A juventude não é uma experiência homogénea nem universal. As oportunidades de projetar o futuro dependem fortemente das condições económicas, educativas, territoriais e institucionais em que os jovens se encontram inseridos. Quando essas condições são frágeis, a vulnerabilidade deixa de ser episódica e torna-se estrutural.

Um dos aspetos mais marcantes desta condição é a sua dimensão temporal. A juventude vulnerabilizada vive num presente saturado, marcado pela urgência e pela espera. Espera-se por emprego, por resposta institucional, por regularização, por reconhecimento. O tempo deixa de ser espaço de projeção e transforma-se em suspensão. Esta suspensão do futuro produz efeitos profundos na relação dos jovens consigo próprios e com o mundo social.

O sofrimento psíquico emerge, nestes contextos, não como patologia individual, mas como expressão social de uma vida vivida sob pressão contínua. Ansiedade, desmotivação, sentimentos de inutilidade ou de fracasso não resultam de fragilidades pessoais, mas de contextos que exigem desempenho constante sem oferecer suporte equivalente. A vulnerabilidade emocional não pode ser dissociada da vulnerabilidade social que a produz.

As políticas públicas dirigidas à juventude revelam aqui os seus limites mais evidentes. Com frequência, os jovens em situação de vulnerabilidade são tratados como problema a corrigir, risco a conter ou défice a compensar. Programas fragmentados, de curta duração e centrados na responsabilização individual falham em reconhecer a densidade das trajetórias juvenis marcadas pela exclusão. Quando a resposta política se limita à empregabilidade imediata ou à normalização comportamental, ignora as condições estruturais que restringem as possibilidades reais de escolha.

Pensar a juventude a partir da vulnerabilidade implica reconhecer que o risco não é distribuído de forma equitativa. Alguns jovens dispõem de redes de apoio, tempo protegido e margem para falhar; outros enfrentam precocemente a exigência de autonomia sem recursos. Esta assimetria não é natural nem inevitável. Resulta de escolhas sociais que definem quem pode experimentar o futuro e quem é obrigado a sobreviver no presente.

No III Andamento do ciclo, a juventude vulnerabilizada surge como uma das expressões mais claras da injustiça intergeracional contemporânea. Quando a vulnerabilidade se instala cedo, tende a prolongar-se ao longo do ciclo de vida, acumulando desvantagens que fragilizam não apenas trajetórias individuais, mas o próprio tecido social. A juventude deixa de ser etapa de abertura e transforma-se em antecipação de desigualdade durável.

O paralelismo com o III Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler, Comodo. Scherzando, ajuda a pensar esta condição. A música sugere leveza, movimento e até ironia, mas nunca encontra repouso. Avança por desvios subtis, interrupções e instabilidades que impedem a fixação. Tal como as trajetórias juvenis vulnerabilizadas, o andamento parece sempre em deslocamento, sem lugar seguro onde assentar.

As narrativas que responsabilizam os jovens pelas condições que enfrentam falham o essencial. Ignoram a densidade social, institucional e temporal das suas trajetórias. Quando a precariedade é apresentada como falta de esforço e a instabilidade como traço geracional, apaga-se o peso das escolhas políticas que moldam as possibilidades reais de futuro.

A vulnerabilidade juvenil não é falha de carácter nem défice individual. É o resultado de contextos sociais que exigem adaptação permanente sem oferecer suporte equivalente. Reconhecer esta assimetria não é um gesto de indulgência, mas uma condição mínima para pensar políticas públicas que não tratem uma geração inteira como descartável ou eternamente “em transição”.

Bibliografia comentada

BELLENZANI, Ricardo; MALFITANO, Ana Paula Serrata. Juventudes, vulnerabilidades e políticas públicas. São Paulo: Cortez, 2016.
Obra de referência para compreender a vulnerabilidade juvenil como fenómeno socialmente produzido, articulando exclusão social, sofrimento psíquico e limites das políticas públicas. Sustenta uma abordagem integrada e recusa leituras individualizantes da juventude.

Glossário

Juventudes vulnerabilizadas: expressão que sublinha que a vulnerabilidade não é traço natural da juventude, mas resultado de condições sociais, económicas e institucionais que expõem certos jovens a riscos persistentes (precariedade, exclusão, ausência de apoio).

Exclusão social: processo pelo qual indivíduos ou grupos são afastados de recursos, direitos e participação (educação, trabalho digno, habitação, cultura, redes), produzindo trajetórias marcadas por desvantagens acumuladas.

Sofrimento psíquico: mal-estar emocional e mental (ansiedade, desmotivação, sensação de fracasso) entendido aqui como expressão social e relacional de condições de vida, e não como falha individual isolada.

Futuros bloqueados: situação em que o horizonte de projeto e de mobilidade social é restringido por precariedade material, instabilidade institucional e ausência de reconhecimento, tornando o futuro incerto ou inacessível.

Fragilidade institucional: insuficiência, descontinuidade ou ineficácia de instituições e políticas públicas (escola, proteção social, emprego, saúde) em garantir apoio consistente e direitos efetivos.

Precariedade material: condição de instabilidade económica e de recursos (rendimentos baixos, habitação insegura, trabalho irregular) que reduz a margem para experimentar, errar e recomeçar.

Suspensão do futuro: experiência temporal em que o tempo deixa de ser espaço de projeto e passa a ser vivido como espera e urgência, dependente de respostas institucionais (emprego, apoios, regularizações, reconhecimento).

Responsabilização individual: lógica política e cultural que atribui aos sujeitos a causa e a solução das suas dificuldades, ocultando as condições estruturais (desigualdade, precariedade, falhas institucionais) que limitam escolhas reais.

Injustiça intergeracional: desigualdade que afeta gerações de modo assimétrico, quando uma parte dos jovens herda condições de vida e de futuro estruturalmente mais frágeis, com impacto prolongado no ciclo de vida.

© Manuela Ralha, 2026

Comentários