Diálogos sobre a Vulnerabilidade - IV ANDAMENTO -RISCO / CATÁSTROFE -19 — Viver no tempo das catástrofes
Ambiente Sonoro:
IV andamento da Sinfonia nº 3 em Ré menor de Gustav Mahler - Sehr langsam — Misterioso — "O Mensch! Gib Acht!" [Muito Lento — Misterioso — "Oh, Humano! Presta Atenção!"]. É um andamento vocal que apresenta uma contralto solista cantando a "Canção da Meia-Noite" ("O Mensch! Gib Acht!") do livro Assim Falou Zaratustra de Friedrich Nietzsche.
19 — Viver no tempo das catástrofes
Diálogo com Isabelle Stengers
A intrusão de Gaia e a exigência de resistência
A catástrofe deixou de ser um acontecimento excecional. Já não se anuncia apenas sob a forma de rutura súbita, mas infiltra-se no quotidiano, nas decisões políticas adiadas, nos equilíbrios ecológicos degradados e na sensação persistente de que algo de irreversível foi desencadeado. É este deslocamento fundamental que Isabelle Stengers propõe: não vivemos à espera da catástrofe — vivemos no seu tempo.
Em No tempo das catástrofes, Stengers recusa a narrativa tranquilizadora segundo a qual os riscos ambientais e climáticos podem ser plenamente controlados por soluções técnicas ou por ajustes marginais ao modelo de desenvolvimento. A catástrofe, para ela, não é um acidente a evitar, mas o sinal de que os limites foram ultrapassados. O que está em causa não é um problema setorial, mas uma transformação profunda das condições de possibilidade da vida comum.
A noção de “intrusão de Gaia” é central neste pensamento. Gaia não surge como metáfora poética da natureza, mas como força que responde às agressões humanas de forma indiferente às intenções, às promessas de progresso ou às hierarquias sociais. A Terra deixa de ser cenário passivo da ação humana e passa a ser agente que reage. Esta intrusão rompe com a ilusão moderna de domínio e coloca a humanidade perante uma vulnerabilidade radical: a incapacidade de controlar plenamente os efeitos das suas próprias ações.
Este ponto marca uma inflexão decisiva no IV Andamento. Depois de Beck, Giddens, Acselrad e Blaikie, onde o risco é fabricado, governado e territorializado, Stengers introduz uma dimensão mais profunda: a catástrofe como condição durável. Já não se trata apenas de distribuição desigual do perigo, mas da entrada num tempo em que os equilíbrios que sustentavam a previsibilidade moderna deixaram de existir.
Viver no tempo das catástrofes significa viver sem garantias de retorno ao estado anterior. Não há promessa de normalidade futura. O que foi perdido — biodiversidade, estabilidade climática, capacidade de regeneração dos ecossistemas — não pode ser simplesmente restaurado. A vulnerabilidade torna-se irreversível em muitos planos. Este reconhecimento é perturbador porque obriga a abandonar a narrativa do progresso contínuo e a aceitar a coexistência com limites intransponíveis.
Stengers recusa, contudo, tanto o negacionismo como o catastrofismo paralisante. A sua proposta não é a do desespero, mas a da resistência. Resistir, neste contexto, não significa opor-se frontalmente a um inimigo identificável, mas recusar a aceleração cega, a normalização do desastre e a delegação acrítica das decisões em peritos e mercados. A resistência começa por desacelerar, escutar, hesitar.
Esta hesitação é política. Num mundo governado pela urgência económica e pela promessa de soluções tecnológicas rápidas, hesitar é um gesto subversivo. Significa reconhecer que nem tudo deve ser decidido em nome da eficiência e que algumas escolhas exigem prudência radical. A vulnerabilidade, aqui, deixa de ser apenas condição a gerir e passa a ser critério ético: o que está em jogo não é apenas quem sofre hoje, mas que mundos permanecem habitáveis amanhã.
No percurso do IV Andamento — Risco / Catástrofe, este ensaio desloca o eixo da análise do como para o quando. A catástrofe não é apenas algo que acontece; é o tempo em que se decide sem garantias, em que se age sabendo que os efeitos podem ser irreversíveis. A vulnerabilidade já não é apenas social ou territorial; é planetária, atravessando humanos e não humanos.
Pensar a vulnerabilidade a partir de Stengers implica aceitar uma perda fundamental: a perda da ilusão de controlo. Mas implica também ganhar outra coisa — a possibilidade de uma política mais humilde, mais atenta às consequências e mais comprometida com a vida. A resistência que ela propõe não é heroica nem redentora; é persistente, situada e consciente dos limites.
Este ensaio marca um ponto de não retorno no ciclo. Depois dele, já não é possível falar de risco como simples variável técnica ou de catástrofe como exceção histórica. O mundo entrou num tempo em que a vulnerabilidade se tornou condição partilhada — mas, mais uma vez, vivida de forma profundamente desigual. A justiça social, daqui em diante, não pode ser pensada sem a justiça ecológica. E a responsabilidade deixa de ser apenas humana; torna-se também responsabilidade perante aquilo que foi ferido para além de nós.
Bibliografia comentada
STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes. Lisboa: Orfeu Negro, 2015.
Obra central do pensamento contemporâneo sobre crise ecológica e política. Stengers propõe a noção de “intrusão de Gaia” para pensar a catástrofe como condição histórica e defende uma ética da resistência baseada na prudência, na desaceleração e na responsabilidade.
Glossário pedagógico
Intrusão de Gaia: conceito central em Isabelle Stengers que designa a irrupção da Terra como força ativa e reativa, indiferente às expectativas humanas de controlo, progresso ou domínio.
Tempo das catástrofes: condição histórica em que a catástrofe deixa de ser exceção e passa a constituir o horizonte durável da vida coletiva, marcado pela irreversibilidade de muitos danos ecológicos e sociais.
Catástrofe como condição: ideia segundo a qual a catástrofe não deve ser pensada apenas como evento súbito, mas como processo prolongado de degradação das condições de habitabilidade do mundo.
Resistência: prática ética e política que, em Stengers, não significa heroísmo ou redenção, mas capacidade de recusar a aceleração cega, a normalização do desastre e a submissão integral à lógica técnica e económica.
Desaceleração: gesto político de suspensão da resposta automática e da pressa decisória, permitindo pensar com prudência, atenção e responsabilidade perante consequências potencialmente irreversíveis.
Hesitação política: atitude crítica que recusa decisões tomadas apenas em nome da eficiência ou da urgência económica, afirmando a necessidade de ponderação radical em contextos de vulnerabilidade extrema.
Perda da ilusão de controlo: reconhecimento de que a humanidade não domina plenamente os efeitos das suas ações sobre os sistemas ecológicos e sobre as condições de vida planetária.
Vulnerabilidade planetária: entendimento de que a vulnerabilidade já não é apenas social ou territorial, mas atravessa a totalidade do mundo vivo, envolvendo humanos e não humanos numa condição partilhada de exposição.
Irreversibilidade: característica de muitos processos ecológicos contemporâneos, como a perda de biodiversidade ou a desestabilização climática, que já não permitem retorno ao estado anterior.
Justiça ecológica: princípio segundo o qual a justiça social deve ser pensada em articulação com a preservação das condições ecológicas que tornam a vida comum possível.
© Manuela Ralha, 2026

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