Diálogos sobre a Vulnerabilidade - III ANDAMENTO — POPULAÇÕES VULNERABILIZADAS - 10 — A doença como desigualdade social
Legenda da imagem: Figura central de uma pessoa deitada numa maca hospitalar, iluminada por um halo de luz. Em redor, num círculo segmentado, surgem paisagens que representam fatores estruturais da desigualdade em saúde — cidade desigual, poluição industrial, periferia urbana precarizada e hospital sobrecarregado. A composição visualiza a forma como as condições sociais moldam a experiência da doença.
Ambiente sonoro: III Andamento da Sinfonia n.º 3 de Gustav Mahler (Comodo. Scherzando)
10 — A doença como desigualdade socialDiálogo com Ricardo de Sousa AntunesClasse, território e acesso aos cuidados
A doença é muitas vezes apresentada como um acontecimento contingente, inscrito no corpo individual e explicado por fatores biológicos ou comportamentais. Esta leitura, ainda dominante no discurso público, tende a ocultar uma dimensão central: a doença distribui-se de forma profundamente desigual nas sociedades contemporâneas. Não apenas em termos de incidência, mas sobretudo nas condições em que é vivida, tratada e acompanhada. A doença é, neste sentido, um dos lugares privilegiados onde a vulnerabilidade social se torna visível.
O contributo de Ricardo de Sousa Antunes é decisivo para pensar a saúde como fenómeno socialmente estruturado no contexto português. A sua análise mostra que as desigualdades em saúde não constituem uma disfunção marginal do sistema, mas antes uma expressão consistente das clivagens sociais que atravessam a sociedade. Classe social, território e condições de vida moldam de forma sistemática a exposição à doença, a capacidade de resposta e o acesso efetivo aos cuidados.
A classe social continua a ser um dos determinantes mais robustos da saúde. Os grupos socialmente mais desfavorecidos apresentam maior prevalência de doenças crónicas, maior exposição a fatores de risco e menor esperança de vida saudável. Estas diferenças não resultam de escolhas individuais isoladas, mas de trajetórias marcadas por precariedade laboral, instabilidade económica, habitação inadequada e acumulação de stress social. A doença surge, assim, menos como acidente biográfico e mais como consequência previsível de condições estruturais.
O território introduz uma segunda linha de desigualdade. O acesso aos cuidados de saúde varia significativamente entre regiões, zonas urbanas e rurais, litoral e interior. A distribuição desigual de serviços, profissionais e recursos especializados cria geografias da vulnerabilidade em saúde. Viver num determinado território pode significar esperar mais tempo por cuidados, percorrer maiores distâncias para obter diagnóstico ou enfrentar descontinuidade no acompanhamento clínico. A universalidade formal do sistema convive, assim, com desigualdades territoriais persistentes.
Estas desigualdades não se limitam ao acesso físico aos serviços. Manifestam-se também na capacidade de os utilizar. A literacia em saúde, a familiaridade com os circuitos institucionais e a confiança nas instituições são recursos socialmente distribuídos. Indivíduos com menor capital cultural e social enfrentam maiores dificuldades em reconhecer sintomas, procurar ajuda atempadamente ou reivindicar direitos no interior do sistema de saúde. A vulnerabilidade instala-se, muitas vezes, na interface entre o corpo doente e a instituição.
Neste sentido, a doença é também desigual na sua gestão. O mesmo diagnóstico pode ter consequências profundamente distintas consoante a rede de apoio disponível, a estabilidade económica e a capacidade de mobilizar recursos formais e informais. Para alguns, a doença representa uma interrupção temporária; para outros, desencadeia uma cascata de perdas — rendimento, autonomia, estatuto social — que agravam a vulnerabilidade pré-existente.
A análise sociológica da saúde permite, assim, problematizar a ideia de que a universalidade do acesso é suficiente para garantir equidade. Um sistema universal pode coexistir com desigualdades profundas se não reconhecer que necessidades diferentes exigem respostas diferenciadas. Tratar de forma igual situações estruturalmente desiguais tende a reproduzir — e por vezes a aprofundar — as clivagens que se pretende combater.
No percurso do III Andamento, a doença ocupa um lugar estratégico. Depois da mobilidade governada, da proteção hierarquizada e da pobreza herdada, a doença revela a forma como a vulnerabilidade se inscreve no corpo de modo cumulativo. Ela torna visível a articulação entre desigualdade social e fragilidade corporal, mostrando que o risco não é apenas externo ou episódico, mas incorporado ao longo do tempo.
A doença funciona, assim, como revelador social. Expõe as falhas de proteção, os limites das políticas públicas e a persistência de desigualdades que atravessam gerações. Pensá-la como desigualdade social implica deslocar o olhar do indivíduo para as condições que moldam a sua vida, reconhecendo que o acesso ao cuidado é um campo profundamente político, onde se decide quem pode adoecer sem cair e quem não.
Bibliografia comentada
ANTUNES, Ricardo de Sousa. Desigualdades em saúde. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.
Obra de referência no campo da sociologia da saúde em Portugal. O autor analisa de forma sistemática a persistência das desigualdades sociais na distribuição da doença e no acesso aos cuidados, articulando classe social, território e condições de vida. O livro é fundamental para compreender os limites da universalidade formal do sistema de saúde face a desigualdades socialmente produzidas.
CZERESNIA, Sueli; OVIEDO, Ricardo A. Promoção da saúde: conceitos, reflexões e tendências. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2015.
Obra central para uma abordagem biossocial da saúde. Os autores propõem uma leitura que ultrapassa o modelo biomédico, integrando determinantes sociais, contextos territoriais e desigualdades estruturais. Apesar de centrada no contexto brasileiro, oferece instrumentos conceptuais essenciais para pensar a produção social da vulnerabilidade em saúde em contextos comparáveis.
Glossário
Desigualdades em saúde: diferenças sistemáticas na incidência de doença, esperança de vida e acesso aos cuidados entre grupos sociais distintos, associadas a fatores estruturais como classe social, território e condições de vida.
Determinantes sociais da saúde: conjunto de condições económicas, sociais, ambientais e culturais que influenciam o estado de saúde das populações.
Geografias da vulnerabilidade: distribuição territorial desigual de recursos, serviços e oportunidades que afeta a exposição à doença e o acesso aos cuidados.
Literacia em saúde: capacidade de compreender informação sobre saúde, reconhecer sintomas e utilizar adequadamente os serviços disponíveis.
Universalidade formal: princípio segundo o qual todos têm direito legal de acesso a um sistema, independentemente da sua posição social.
Equidade em saúde: princípio que defende respostas diferenciadas para necessidades diferentes, visando reduzir desigualdades estruturais.
Vulnerabilidade cumulativa: processo pelo qual desvantagens sociais acumuladas ao longo do tempo aumentam a exposição ao risco e à doença.
© Manuela Ralha, 2026

A doença não acontece igual para todos. Quem adoece e como é tratado depende da classe, do lugar onde vive e do apoio que tem. Um sistema que é igual para todos não basta, é preciso olhar para as diferenças de cada um.
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