Dia internacional da Mulher

 

Legenda da imagem: Mulheres de diferentes idades e origens caminham juntas no espaço público, simbolizando diversidade, solidariedade e o percurso coletivo pela plena participação das mulheres na sociedade.

🎧 Ambiente de leitura

Entre o que somos e o espaço que o mundo nos concede

Reflexão para o Dia Internacional da Mulher

Há uma frase que permanece como uma das mais poderosas reflexões sobre a condição feminina. Escreveu Simone de Beauvoir:

“Não se nasce mulher: torna-se mulher.”

Esta afirmação lembra-nos que ser mulher nunca foi apenas um dado biológico. Foi, durante séculos, uma construção social marcada por limites, expectativas e papéis impostos.

Tornar-se mulher significou muitas vezes aprender a atravessar fronteiras que outros definiram.

Mas há algo que este dia também precisa de reconhecer com honestidade.

Há mulheres a quem sempre disseram que não podiam.
Mulheres a quem repetiram, desde cedo, que não cabiam.

Não cabiam na norma.
Não cabiam no pensamento único.
Não cabiam no modelo estreito do que a sociedade decidiu que uma mulher deveria ser.

Mulheres que ouviram que eram demasiado fortes, demasiado livres, demasiado diferentes.

Outras ouviram exatamente o contrário:
que eram insuficientes, imperfeitas, inadequadas.

Não cabiam porque os seus corpos não correspondiam ao ideal imposto.
Não cabiam porque as suas vozes eram demasiado firmes.
Não cabiam porque pensavam, questionavam, criavam, ousavam existir fora dos limites que lhes tinham sido traçados.

E houve também aquelas a quem nem sequer foi permitido tornar-se mulheres.

Mulheres privadas de educação.
Mulheres silenciadas pela violência.
Mulheres esmagadas pela pobreza, pela discriminação ou pela guerra.

Mulheres a quem disseram que o mundo não estava preparado para elas.
Que os seus passos eram lentos demais para o ritmo imposto.
Que os seus caminhos não estavam previstos nos mapas da normalidade.

Mulheres cuja vida foi vivida nas margens da história.

Legenda da imagem: Mulheres caminhando lado a lado, representando a diversidade das experiências femininas e o caminho coletivo para que todas possam existir plenamente no mundo.

Por isso recordo-as hoje.

Recordo as que abriram caminhos quando tudo parecia fechado.
Recordo as que resistiram quando lhes disseram que não podiam.
Recordo as que ousaram existir quando lhes disseram que não cabiam.

Recordo também aquelas que todos os dias caminham num mundo que ainda não foi plenamente pensado para elas — e que, ainda assim, o habitam com coragem, inteligência e dignidade.

E recordo aquelas que nunca tiveram sequer a oportunidade de escolher quem poderiam ter sido.

Ser mulher nunca foi caber numa forma pré-definida.

Ser mulher é poder existir plenamente:
com pensamento próprio,
com voz própria,
com liberdade própria.

Talvez por isso a frase de Simone de Beauvoir continue a ecoar no nosso tempo:

“Não se nasce mulher: torna-se mulher.”

Mas há mulheres a quem nunca deixaram o espaço necessário para se tornarem quem eram.

E talvez seja esse, ainda hoje, o nosso maior desafio coletivo:

abrir espaço no mundo para que nenhuma mulher tenha de pedir licença para existir plenamente.

© Manuela Ralha, 2026

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