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A mostrar mensagens de outubro, 2025

Luna in Lacu

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   Sugestão de escuta: para acompanhar esta leitura, deixo uma peça que me inspira profundamente — uma interpretação serena e luminosa de Chopin, que reflete com subtileza a alma deste texto. Ouvir: Chopin — Nocturne Op. 9 No. 2 por Seong-Jin Cho Desde cedo aprendi que viver não é apenas passar pelos dias, mas preencher cada instante com totalidade. As palavras de Ricardo Reis — "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui." — tornaram-se para mim mais do que um ideal literário; são um princípio orientador, uma bússola moral que me recorda, a cada passo, a importância da inteireza no viver. Com o tempo, descobri também outro poema que me acompanha e sustém: as palavras de Walt Whitman, tão diferentes no estilo, mas tão próximas no essencial, tocaram-me profundamente — "Aproveita o dia, / Não deixes que termine sem teres crescido um pouco, / sem teres sido feliz, sem teres alimentado os teus sonhos…" A poesia tem essa capacidade: de nos alcançar...

A Construção do Comum - Epílogo

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  Ambiente Sonoro: Yann Tiersen — La Valse d’Amélie (Versão Piano) Ouvir no YouTube ;  Ouvir no Spotify PRÓLOGO — A Construção do Comum Este ciclo de ensaios nasceu da vida que vivi e da que aprendi a reconstruir. Dos anos fechada, do silêncio que me ensinou a escutar, dos estudos e das leituras que me deram voz, dos protestos e das manifestações que me deram força. Mas nasceu, sobretudo, das minhas inquietações e da luta por uma sociedade mais justa. Há quem diga que a política se faz com a cabeça. Eu acredito que também se faz com o corpo — o corpo que sente, que enfrenta escadas sem rampas, que espera elevadores que não chegam, que ouve silêncios em vez de respostas. É nesse corpo que se inscreve a ética do cuidado e a urgência da transformação. Este ciclo é, por isso, um exercício de reconstrução — pessoal, cívica e coletiva. Cada texto nasce do encontro entre a experiência e o pensamento, ...

A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - V Ensaio: Da caridade à cidadania: o novo paradigma das políticas sociais

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  Ambiente Sonoro: Joep Beving — Ab Ovo Ouvir no Spotify · Ouvir no YouTube A história das políticas sociais é, em grande parte, a história da forma como a sociedade olha o outro — e de como decide se o reconhece como igual ou o tolera como exceção. Durante séculos, a deficiência, a pobreza e a vulnerabilidade foram tratadas sob o signo da caridade : um gesto nobre, mas profundamente desigual. Ajudar não é o mesmo que reconhecer. Ajudar confirma o poder de quem dá; reconhecer funda o direito de quem existe. É nessa passagem — da caridade à cidadania — que se decide o grau de humanidade de uma democracia.  Fernando Fontes (2019) sintetiza este dilema com lucidez: “enquanto as políticas sociais forem vistas como dádiva e não como direito, a exclusão continuará disfarçada de benevolência”. O verdadeiro avanço civilizacional não está em multiplicar apoios, mas em mudar o olhar — substituir a lógica da ajuda pela lógica da justiça, e a do favor pela da...

A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - IV Ensaio: Arte e deficiência: a criação artística como espaço de libertação

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Ambiente Sonoro: Hugar — Waves (feat. Arnór Dan) Ouvir no Spotify · Ouvir no YouTube A arte é, desde sempre, o território onde o humano se reconhece. Para quem vive com uma deficiência, a criação artística torna-se não apenas expressão, mas libertação — um modo de existir fora das normas que o mundo impõe. Através da arte, o corpo reencontra sentido, a voz ganha espaço e o olhar do outro é desafiado a reaprender o que vê. Como escreve Fernando Fontes (2019) , “a deficiência é uma construção social e política, não um destino individual”. Nesta perspetiva, a arte não é terapia: é linguagem política. É o lugar onde a pessoa deixa de ser vista como “objeto de intervenção” e se afirma como sujeito criador. O gesto artístico, seja ele pictórico, performativo ou musical, reconfigura a relação entre corpo, espaço e poder — transforma a fragilidade em estética, e o silêncio em discurso. Jacques Rancière (2009) lembra-nos que “a arte é po...

A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - III Ensaio: O trabalho acessível: emprego, vulnerabilidade e redes locais de inclusão

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  🎧 Ambiente Sonoro: Balmorhea — Settler Ouvir no Spotify · Ouvir no YouTube O trabalho é uma das expressões mais profundas da dignidade humana. Não apenas fonte de rendimento, mas espaço de pertença, reconhecimento e realização. No entanto, para muitas pessoas com deficiência ou com limitações funcionais, o acesso ao emprego continua a ser um percurso de barreiras invisíveis: preconceito, desadequação estrutural e ausência de políticas articuladas entre formação, acessibilidade e acompanhamento. Como observa Fernando Fontes (2019) , “a integração profissional das pessoas com deficiência é o verdadeiro teste de uma sociedade inclusiva”. O direito ao trabalho digno, consagrado na Constituição Portuguesa e na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006) , não pode depender de boa vontade, mas de políticas públicas concretas que transformem o mercado de trabalho num espaço de justiça. ...

A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - II Ensaio: Cidades que cuidam: o urbanismo inclusivo como projeto político e emocional

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    Ambiente Sonoro: A Winged Victory for the Sullen — Steep Hills of Vicodin Tears Ouvir no Spotify · Ouvir no YouTube Cidades que cuidam: o urbanismo inclusivo como projeto político e emocional A cidade é mais do que um conjunto de edifícios e vias; é uma construção simbólica e afetiva, um espelho da forma como uma sociedade se organiza e se imagina. No modo como planeia os espaços públicos, desenha os transportes, ergue as escolas e cuida dos seus jardins, revela-se o grau de maturidade democrática de uma comunidade. Uma cidade acessível não é apenas aquela onde se circula — é aquela onde se pertence . Henri Lefebvre (1968) definiu o direito à cidade como o direito de todos a participar na produção do espaço urbano e a usufruir das suas possibilidades. Esse direito, porém, tem sido historicamente desigual: o espaço urbano reproduz, muitas vezes, as exclusões sociais, económicas e simbólicas que atrave...

A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - I Ensaio: A Acessibilidade como Cultura de Justiça, não como Favor

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    Ambiente Sonoro: Peter Gregson — Patina Ouvir no Spotify · Ouvir no YouTube A Acessibilidade como Cultura de Justiça, não como Favor Durante demasiado tempo, a deficiência foi interpretada como uma tragédia individual, um desvio à norma que exigia compaixão ou paternalismo. Essa perspetiva, ainda presente em muitos discursos públicos, alimenta o equívoco de que a acessibilidade é um gesto de boa vontade — uma oferta que alguns fazem aos que “não conseguem”. Mas a acessibilidade não é um favor. É justiça social em ação , a tradução concreta do direito de pertencer. Como lembra Fernando Fontes (2019) , a deficiência não é uma condição pessoal, mas “o resultado das barreiras sociais, físicas e culturais que impedem a participação plena na vida comunitária”. O problema, portanto, não está no corpo ou na mente , mas nas estruturas que organizam o espaço e o imaginário social. Esta é a essência do modelo social da deficiência...

A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - Prólogo

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 Ambiente Sonoro: Federico Albanese — By the Deep Sea Ouvir no Spotify · Ouvir no YouTube PRÓLOGO — Porque Decidi Escrever sobre Inclusão, Acessibilidade e Cidadania Plena Escrever sobre inclusão é continuar a agir — é dar corpo à voz, mesmo quando o corpo cansa. Fui e serei sempre uma ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Não porque o tenha escolhido como bandeira, mas porque a vida me ensinou que o silêncio também é forma de exclusão. A sociedade tem de evoluir — não apenas em infraestruturas ou legislação, mas sobretudo em consciência. O maior obstáculo não é a falta de rampas, é a persistência das barreiras atitudinais. São elas que transformam a diferença em obstáculo e a dignidade em favor. Este ciclo de ensaios nasce dessa urgência: a de repensar a acessibilidade não como exceção ou gesto de boa vontade, mas como cultura de justiça. O caminho não é o da caridade, é o da cidadania. Não se inclui quem j...

Trilogia "Entre o Cuidar e o Pertencer" - Epílogo: A Construção do Comum

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  🎧 Ambiente sonoro (coda): Gustav Mahler — Sinfonia n.º 9, IV andamento: Adagio (Abbado/Berliner Philharmoniker, ao vivo) · Ouvir no YouTube (Bernstein/Vienna Philharmonic) Um adeus sem sombra: serenidade que se abre em claridade, como quem volta a casa depois da travessia. O som do cuidar , do habitar e do pertencer a permanecer no silêncio. Esta trilogia nasceu de uma inquietação: como reconstruir o humano num tempo de fragmentação e cansaço coletivo . No prólogo, ficou dito que o cuidar seria o fio condutor — não como gesto caritativo, mas como fundamento ético e político da vida em comum . Agora, ao fechar este ciclo, importa clarificar o sentido do caminho: o modo como o cuidar , o habitar e o pertencer se tornaram, ao longo dos três ensaios, dimensões complementares de uma mesma visão de sociedade. O primeiro ensaio, O Cuidar como Resistência , definiu o ponto de partida. Ali, o cuidar foi entendido como ato de responsabilidade e de emancipação — uma ...

Trilogia “Entre o Cuidar e o Pertencer” — Ensaio III - Pertencer: o Direito a um Lugar no Mundo

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  Ambiente sonoro sugerido — Andamento Adagio sostenuto  Ludwig van Beethoven — Sonata ao Luar, Op. 27 n.º 2 — Adagio sostenuto Ouvir no Spotify  · Ouvir no YouTube Justificação: serenidade que “sustém o tempo” — o som do habitar e do pertencer . “Não se pertence a um lugar por habitá-lo, mas por cuidá-lo.” Vivemos um tempo de abundância tecnológica e pobreza relacional . Um tempo em que a proximidade se mede em cliques e a solidão se esconde por detrás de ecrãs acesos. Zygmunt Bauman chamou-lhe “modernidade líquida” — vínculos frágeis, pertenças efémeras, identidades em suspensão. Na pressa de tudo consumir, desaprendemos o verbo permanecer . Este é, porventura, o mais silencioso dos exílios: o de quem vive rodeado de pessoas, mas sem comunidade ; o de quem habita espaços partilhados, mas sem laço ; o de quem participa em redes, mas não pertence a nenhuma. A velocidade, que prometia liberdade, trouxe também de...