A Ilha Que Nunca Existiu: Utopias, Direitos Humanos e o Sonho Coletivo

 “Um mapa-múndi que não inclui a Utopia nem vale a pena olhar, pois deixa de fora o único país em que a Humanidade está sempre pousando.” — Oscar Wilde

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Jóhann Jóhannsson – Orphée (2016)
Este álbum do compositor islandês, inspirado no mito de Orfeu e na travessia entre mundos, conjuga elementos clássicos e eletrónicos com uma melancolia contida e profunda. Tal como o texto que se segue, Orphée move-se entre o visível e o invisível, o ideal e o impossível, o real e o sonhado. É uma música que não ilustra, mas insinua. Evoca tanto a beleza como a fragilidade do impulso utópico — e é, por isso, o pano de fundo sonoro ideal para esta reflexão.

Utopia: Entre a Esperança e a Ilusão

A palavra "utopia", criada por Thomas More em 1516, carrega em si um paradoxo: é o "não lugar", e, ainda assim, o lugar onde muitos gostariam de viver. No seu livro Utopia, More apresenta uma ilha ideal onde reina a justiça, a igualdade e a racionalidade — uma crítica direta à Europa do seu tempo, marcada por desigualdades, guerras e injustiças. Através da figura do navegador português Rafael Hitlodeu, More apresenta um mundo onde o bem comum prevalece sobre os interesses individuais, um lugar onde a razão substitui a violência e a partilha substitui a ambição desmedida.

Apesar de escrita no século XVI, Utopia mantém-se perturbadoramente atual. A realidade do século XXI continua a ser atravessada por guerras, crises migratórias, desigualdades abismais e desrespeito sistemático pelos direitos humanos. À semelhança da obra de More, também nós sonhamos com sociedades justas — ainda que esses sonhos se pareçam, cada vez mais, com ficções impossíveis.

A utopia, no entanto, não é apenas um exercício de fuga ou um devaneio ingénuo. Como nos mostra a própria estrutura da obra, dividida entre crítica à realidade e descrição do ideal, trata-se de um exercício mental e político que procura, com base na razão, imaginar alternativas possíveis à ordem estabelecida. A utopia é, por isso, um jogo entre um real que se rejeita e um ideal que se deseja, como um espelho invertido do nosso mundo.

Direitos Humanos: Utopia ou Compromisso?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948 pela recém-criada ONU, é talvez o documento utópico mais ambicioso da história moderna. Redigida no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, como resposta aos horrores do Holocausto e aos regimes totalitários, propõe uma visão comum para a humanidade baseada na dignidade, liberdade, igualdade e solidariedade entre todos os povos. É um texto profundamente idealista, que não se limita a denunciar as injustiças do mundo, mas ousa imaginar uma ordem global assente na justiça e no respeito mútuo — uma utopia orientadora, que permanece como um farol no meio da tempestade: inatingível, talvez, mas absolutamente necessária.

Contudo, este ideal permanece constantemente em tensão com a realidade. No século XXI, continuamos a assistir à violação sistemática desses direitos em múltiplas geografias: guerras prolongadas, regimes autoritários, discriminação estrutural, pobreza extrema e catástrofes climáticas que agravam as desigualdades. Em vez de um compromisso global, a aplicação dos direitos humanos parece depender da geopolítica, dos interesses económicos e das conveniências diplomáticas. A pergunta impõe-se: são os direitos humanos uma realidade a consolidar ou um ideal cada vez mais distante?

Como advertia Karl Marx, as utopias, quando desligadas das condições materiais concretas, podem tornar-se instrumentos de alienação, funcionando mais como consolos morais do que como motores de transformação. Marx e Engels foram particularmente críticos dos chamados “socialistas utópicos”, por proporem modelos ideais de sociedade sem uma análise rigorosa das contradições internas do capitalismo e das lutas de classe que lhe são inerentes. Consideravam que tais visões idealizadas não passavam de projetos ilusórios, desprovidos de base histórica e de força política real.

Contudo, esta crítica, embora compreensível no contexto do materialismo histórico, pode ser considerada redutora face ao papel que as utopias desempenham enquanto força imaginativa e impulso mobilizador. Ao desvalorizar a imaginação política em nome de uma análise estritamente económica, Marx parece ignorar que muitas das transformações sociais mais profundas nasceram justamente de ideias que, a seu tempo, foram vistas como irrealizáveis. A abolição da escravatura, o sufrágio feminino, o Estado social europeu ou a própria ideia de direitos universais foram, em dado momento, encarados como fantasias utópicas — e, no entanto, tornaram-se conquistas históricas concretas.

A utopia, longe de ser apenas uma distração, pode funcionar como um horizonte ético e político que orienta a ação prática. Ela não substitui a luta, mas dá-lhe sentido. Como escreve Richard Stahel, “toda organização social depende de algo que não é realizado ou viável, mas tem um ideal que está em algum lugar além do horizonte”. Assim, os direitos humanos não devem ser encarados como um ponto de chegada, mas como um compromisso permanente, uma tarefa inacabada que exige vigilância, participação cívica e vontade política.

A utopia, neste caso, não é uma fuga da realidade, mas uma força crítica e transformadora, capaz de romper com o fatalismo e de sustentar o sonho coletivo de uma sociedade mais justa.

Cidades Invisíveis, Utopias Ocultas

Se Utopia representa um projeto racional de sociedade perfeita, As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, mergulham-nos numa paisagem onírica, poética e profundamente simbólica. Marco Polo descreve ao imperador Kublai Khan uma série de cidades irrepetíveis, todas diferentes, todas impossíveis e, ao mesmo tempo, assustadoramente familiares. Nessas descrições, Calvino não nos apresenta uma utopia fechada, mas múltiplas visões do que as cidades — e por extensão, as sociedades — podem ser.

A utopia em Calvino não é uma ilha ordenada, mas um labirinto de possibilidades, onde convivem beleza e decadência, ordem e caos. Algumas cidades são reflexos de ideais coletivos; outras, distorções dos nossos vícios mais íntimos. Este mosaico pós-moderno convida-nos a pensar o espaço urbano como um campo de tensão entre o real e o ideal — tal como a própria sociedade contemporânea, onde os direitos proclamados nem sempre se materializam em práticas concretas.

Em As Cidades Invisíveis, a utopia não é uma meta a atingir, mas uma permanente reconstrução do sentido, uma espécie de metáfora da busca humana por um lugar onde valha a pena viver. E talvez seja precisamente isso que falta à geopolítica do nosso tempo: a capacidade de imaginar. De criar. De propor algo mais do que soluções técnicas para problemas estruturais. Como escreve Calvino, "a cidade ideal só pode ser construída se for imaginada a cada dia".

Geopolítica e a Urgência do Impossível

Vivemos tempos marcados por uma contradição inquietante: proclamamos os valores da democracia, da liberdade e da dignidade, ao mesmo tempo que assistimos, quase impassíveis, ao retrocesso civilizacional em múltiplas regiões do globo. A lógica económica impõe-se sobre a lógica ética, e a sobrevivência política sobre os compromissos humanitários. Assistimos à ascensão de nacionalismos populistas, ao recrudescimento de discursos autoritários, à erosão do Estado social e à banalização da violência política e mediática. Em muitas partes do mundo, os direitos humanos são tratados como uma retórica conveniente, esvaziada de prática concreta. Neste contexto, a utopia deixou de ser uma fantasia distante para se tornar uma necessidade urgente — não por excesso de idealismo, mas precisamente por falta de alternativas reais.
A globalização, que prometia aproximar culturas e promover a cooperação entre povos, tornou-se um terreno fértil para desigualdades estruturais, exploração económica e manipulação informacional. As fronteiras físicas podem ter-se tornado mais permeáveis, mas as fronteiras morais e económicas endureceram. As guerras são travadas em nome da liberdade, mas produzem novos exílios; o progresso tecnológico aproxima as pessoas, mas isola-as no espaço digital; a abundância informativa multiplica o ruído e dissolve o sentido. Vivemos uma era paradoxal: a era do excesso de tudo, menos de esperança.
A questão que se coloca é: se deixarmos de imaginar, que mundo nos restará? Quando a imaginação política se rende ao pragmatismo e ao medo, o pensamento utópico torna-se o último reduto da resistência intelectual. A utopia contemporânea não pode ser entendida como a imposição de um modelo único e fechado — o erro de tantas ideologias passadas —, mas como a abertura permanente ao possível, um espaço mental e ético onde se experimentam outras formas de convivência, de poder e de justiça. Como defende Ernst Bloch, a utopia é o “ainda-não”, aquilo que ainda não é, mas que pode vir a ser — o motor do progresso humano e o antídoto contra o conformismo.
Neste sentido, as utopias de Thomas More e de Italo Calvino não devem ser lidas como evasões poéticas ou devaneios inofensivos, mas como laboratórios do pensamento político. Elas convidam-nos a reflectir sobre a sociedade actual através da imaginação do impossível. Ambas operam na intersecção entre o sonho e a crítica, entre o ideal e a denúncia: More expõe as falhas da Europa renascentista através da ilha perfeita que não existe; Calvino revela as fissuras do mundo moderno através de cidades que só podem ser pensadas, nunca habitadas. É nesse espaço de fricção — entre o real e o ideal — que nasce a verdadeira força da utopia: não prever o futuro, mas provocar o presente.
A utopia, portanto, não é o contrário da realidade, mas a sua consciência crítica. Num mundo que se habituou a chamar “irrealista” a tudo o que é justo, sonhar tornou-se um ato político. Sonhar é, hoje, uma forma de resistência.

Conclusão: A Utopia como Horizonte Ético

A utopia de Thomas More não nos oferece um modelo aplicável, mas uma provocação intelectual e ética. É um gesto de rebeldia contra o conformismo do pensamento e a resignação perante o poder. Não se trata de desenhar uma sociedade perfeita, mas de lembrar que nenhuma sociedade é definitiva. Utopia é, assim, menos um mapa e mais um espelho — um espelho que devolve à humanidade a imagem daquilo que poderia ser, se tivesse a coragem de imaginar-se diferente.
Lida em articulação com As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, a utopia ganha novas formas e novos significados. Já não é uma ilha isolada, ordenada e racional, mas uma constelação de possibilidades em movimento, um tecido de cidades que se constroem e se desfazem conforme o olhar que as contempla. Calvino mostra-nos que o sonho da perfeição talvez seja menos importante do que a capacidade de continuar a sonhar, mesmo quando tudo à volta parece ruir. É essa persistência do imaginário, esse trabalho invisível da esperança, que mantém viva a chama utópica no coração das sociedades.
No mundo actual — saturado de urgência, dominado pela linguagem da produtividade e da eficiência —, a utopia torna-se um acto de resistência. Num tempo em que o pensamento é frequentemente reduzido a cálculo e o futuro a mera projeção estatística, pensar utopicamente é um gesto de coragem. É recusar o “não há alternativa” e reivindicar o direito de imaginar o impossível. A utopia é política porque amplia o horizonte do possível, ética porque reafirma a dignidade humana como medida de todas as coisas, e literária porque dá forma àquilo que ainda não tem nome.
Reabilitar o pensamento utópico significa recuperar a imaginação como força transformadora — não uma imaginação ingénua ou escapista, mas uma imaginação crítica, lúcida e indomável. Precisamos de voltar a acreditar que outro mundo é possível, mesmo que nunca o alcancemos totalmente. O valor da utopia não está na sua realização literal, mas na tensão que cria entre o que somos e o que poderíamos ser.
Tal como a música de Jóhann Jóhannsson em Orphée, a utopia move-se num território entre a melancolia e a esperança, entre o real e o sonho. É o som de uma travessia — a travessia do pensamento humano em direcção àquilo que ainda não existe. E talvez seja esse o seu maior poder: não o de prometer um paraíso, mas o de nos impedir de aceitar o inferno como inevitável.
Manuela Ralha

Referências bibliográficas 

  • Calvino, I. (2007). As cidades invisíveis (5.ª ed., trad. José Colaço Barreiros). Lisboa: Teorema.
  • More, T. (2017). Utopia (trad. Miguel Serras Pereira). Lisboa: Relógio D’Água.
  • Orwell, G. (2021). 1984 (trad. Jorge Vaz de Carvalho). Lisboa: Antígona.
  • Stahel, R. (2020). O ideal como horizonte social. Coimbra: Almedina.
  • Wilde, O. (2006). O crítico como artista. Lisboa: Relógio D’Água.
  • Bloch, E. (2010). O princípio Esperança (trad. Marco Casanova). Lisboa: Edições 70.
  • Cabet, É. (2019). Viagem à Icária (trad. António Nogueira). Lisboa: Letra Livre.
  • Jóhannsson, J. (2016). Orphée [Álbum]. Deutsche Grammophon.



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