A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - IV Ensaio: Arte e deficiência: a criação artística como espaço de libertação
A arte é, desde sempre, o território onde o humano se reconhece. Para quem vive com uma deficiência, a criação artística torna-se não apenas expressão, mas libertação — um modo de existir fora das normas que o mundo impõe. Através da arte, o corpo reencontra sentido, a voz ganha espaço e o olhar do outro é desafiado a reaprender o que vê.
Como escreve Fernando Fontes (2019), “a deficiência é uma construção social e política, não um destino individual”. Nesta perspetiva, a arte não é terapia: é linguagem política. É o lugar onde a pessoa deixa de ser vista como “objeto de intervenção” e se afirma como sujeito criador. O gesto artístico, seja ele pictórico, performativo ou musical, reconfigura a relação entre corpo, espaço e poder — transforma a fragilidade em estética, e o silêncio em discurso.
Jacques Rancière (2009) lembra-nos que “a arte é política porque reconfigura o que pode ser visto, dito e sentido”. Ao dar visibilidade ao que era invisível, o artista com deficiência desafia a hierarquia do olhar e introduz o dissenso — essa força necessária para que o comum se torne realmente plural. O ato criativo torna-se, assim, um gesto de cidadania: uma forma de reclamar lugar e voz num mundo que ainda insiste em silenciar a diferença.
Como escreveu John Berger (1972), “a arte não é um espelho voltado para o mundo, mas um martelo com que o moldamos”. Criar é intervir: no olhar, no tempo, no imaginário coletivo. A arte acessível e participada não é um subgénero; é um manifesto político e sensível que exige à sociedade o reconhecimento de todas as formas de expressão como igualmente válidas. Rosemarie Garland-Thomson (2009) definiu este movimento como disability aesthetics: uma linguagem artística que desafia o ideal de perfeição e celebra a diversidade das formas humanas. A deficiência torna-se metáfora e matéria-prima da criação — não como limite, mas como lugar de autenticidade e inovação. Durante séculos, as pessoas com deficiência foram representadas na arte como objetos de compaixão, curiosidade ou inspiração — raramente como sujeitos criadores. O século XXI trouxe uma viragem decisiva: artistas com deficiência deixaram de ser exceção e tornaram-se protagonistas de uma nova estética do corpo e da diferença. Não é o corpo “apesar de”, mas “através de” — não é superação, é afirmação.
A experiência estética também atua no plano do desenvolvimento pessoal. Como defendia John Dewey (1934), a arte é experiência completa: une emoção, pensamento e ação. No contexto da deficiência, essa integração é particularmente libertadora — porque devolve à pessoa a totalidade da sua presença, rompendo com a fragmentação imposta pelo olhar clínico ou pela estigmatização social.
Martha Nussbaum (2011) acrescenta que a capacidade de imaginar o outro é um dos pilares da justiça. A arte — como linguagem universal — amplia essa imaginação moral. Ver uma peça interpretada por um corpo diferente, ler um poema escrito com outra voz ou escutar uma música criada a partir da diferença é confrontar-nos com o limite da nossa própria empatia. É nesse confronto que nasce o reconhecimento mútuo — não como gesto assistencial, mas como ética do comum.
Falar de arte e deficiência é também falar de acessibilidade cultural — da necessidade de garantir o direito de todos a participar, criar e fruir. Como tem defendido a Acesso Cultura, a democratização da arte não se limita a abrir portas, mas a remover barreiras sensoriais, cognitivas e atitudinais. A cultura só é pública se for acessível, e o acesso à arte é um direito humano fundamental. Laborinho Lúcio lembrava que “a cultura é a respiração da cidadania” — e sem ela, a democracia perde o seu rosto humano.
A criação artística, em qualquer das suas formas, combate a exclusão não só pela representação, mas pela participação. Projetos artísticos acessíveis — em museus, escolas, centros culturais e comunidades locais — criam pontes entre a estética e a ética, entre o indivíduo e o coletivo. Neles, a deficiência deixa de ser ausência para se tornar potência. A arte liberta porque transforma a vulnerabilidade em linguagem, e o limite em expressão.
Como lembra Richard Sennett (2008), “a cooperação é uma arte”. Essa frase ganha novo sentido neste contexto: ao fazer arte juntos, artistas com e sem deficiência constroem não só obras, mas mundos possíveis. Cada performance acessível, cada exposição aberta à diferença, é uma forma de resistência e de criação do comum.
Sugestões de leitura
Para aprofundar este tema, recomendo estudos sobre arte, deficiência e direitos humanos, com enfoque na criação como emancipação social e desenvolvimento integral da pessoa:
- Fernando Fontes — Deficiência, cidadania e direitos humanos (Almedina, 2019)
- Jacques Rancière — O espectador emancipado (Orfeu Negro, 2010)
- John Berger — Modos de ver (Edições 70, 1972)
- Rosemarie Garland-Thomson — Staring: How We Look (Oxford University Press, 2009)
- Martha Nussbaum — Creating Capabilities (Harvard University Press, 2011)
- John Dewey — Art as Experience (Perigee Books, 2005)
- Richard Sennett — Together: The Rituals, Pleasures and Politics of Cooperation (Yale University Press, 2012)
Bibliografia (APA 7.ª edição)
Berger, J. (1972). Ways of seeing. London: BBC/Penguin Books.
Dewey, J. (1934). Art as experience. New York: Minton, Balch & Company.
Fontes, F. (2019). Deficiência, cidadania e direitos humanos: Para uma sociologia da deficiência em Portugal. Coimbra: Almedina.
Garland-Thomson, R. (2009). Staring: How we look. Oxford: Oxford University Press.
Nussbaum, M. (2011). Creating capabilities: The human development approach. Cambridge: Harvard University Press.
Rancière, J. (2009). The emancipated spectator. London: Verso.
Sennett, R. (2008). Together: The rituals, pleasures and politics of cooperation. New Haven: Yale University Press.
© Manuela Ralha, 2025

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