A visão que falta: inclusão, direitos e dignidade no Dia da Bengala Branca

 "O único lugar pior do que ser cego é ter a visão, mas sem visão." – Helen Keller

Hoje, 15 de Outubro, celebra-se o Dia Mundial da Bengala Branca, uma data simbólica e necessária que nos obriga a parar e a reflectir sobre como olhamos — ou não — para quem vê de forma diferente. A frase de Helen Keller, que sendo surdocega se tornou uma das mais influentes vozes pelos direitos das pessoas com deficiência, é um convite inquietante à introspecção: quantos de nós, apesar de vermos, permanecemos cegos ao outro?

Vivemos numa sociedade que, demasiadas vezes, se mostra surdocega à diferença — que não ouve as necessidades nem vê os obstáculos enfrentados diariamente pelas pessoas com deficiência visual. Esta cegueira social e institucional, feita de preconceito, desinformação e inacção, tem um custo real na vida de milhares de cidadãos.

A bengala branca: símbolo de luta, não de caridade

A bengala branca representa muito mais do que um instrumento de orientação. Ela é um símbolo de autonomia, de resistência e de direitos conquistados por quem se recusa a ser invisibilizado. A sua celebração, proposta pela Federação Mundial de Cegos e reconhecida desde 1964, procura sensibilizar a sociedade e pressionar os Estados a garantirem igualdade de oportunidades, segurança e participação plena às pessoas com deficiência visual.

Mas assinalar esta data não basta. É preciso olhar de frente para os desafios — e são muitos.

A inacessibilidade como forma de exclusão

Comecemos pela acessibilidade comunicacional, uma das áreas onde o défice de inclusão é mais gritante. Ainda hoje, são inúmeros os espaços públicos, transportes, serviços administrativos, hospitais e escolas que não estão preparados para acolher pessoas cegas ou com baixa visão. Falamos de sinalética inexistente ou inadequada, falta de documentos em formatos acessíveis, ausência de informação sonora ou tátil, websites institucionais inacessíveis, e atendimento despreparado, muitas vezes baseado em estereótipos e ideias paternalistas.

O resultado? Barreiras constantes, que vão desde a simples dificuldade em aceder a um serviço de saúde até à impossibilidade de exercer direitos básicos como votar, estudar, trabalhar ou deslocar-se com segurança.

Esta realidade afecta especialmente as pessoas surdocegas, cuja exclusão é ainda mais profunda. O desconhecimento sobre esta condição leva a uma negligência sistemática, quer ao nível do reconhecimento legal, quer ao nível dos apoios específicos — desde intérpretes especializados até tecnologias de comunicação alternativas.

A vida com cegueira: desafios e autonomia possível

Viver com cegueira não é viver sem capacidade, nem viver em constante dependência. Mas a autonomia plena depende de condições concretas que permitam à pessoa cega tomar decisões, deslocar-se, aceder à informação, comunicar e participar activamente.

Nem todas as pessoas cegas usam Braille — por diversas razões: algumas adquiriram cegueira já em idade adulta, outras têm baixa visão e utilizam recursos ampliados ou leitores de ecrã. Mas o Braille continua a ser fundamental, especialmente para garantir o acesso à leitura e à escrita desde a infância. A sua presença, no entanto, é cada vez mais escassa, mesmo em contextos onde deveria estar garantida por lei — como nos produtos de consumo, na sinalética urbana ou nos manuais escolares.

Nas habitações, a autonomia implica adaptações personalizadas: boa organização espacial, contrastes visuais e tácteis, electrodomésticos com sinalização sonora ou tátil, aplicações tecnológicas de apoio, e claro, acesso à internet e dispositivos com leitores de ecrã. Tudo isto exige investimento — mas sobretudo, vontade política e apoio técnico acessível e descentralizado.

E a escola?

A escola, espaço que deveria ser de igualdade e promoção de oportunidades, ainda não está devidamente preparada. Muitas crianças cegas ou com baixa visão não têm acesso a manuais em formatos acessíveis a tempo útil, faltam professores especializados, recursos tecnológicos são escassos ou mal utilizados, e há pouca formação para toda a comunidade educativa. Em vez de adaptarmos o sistema às crianças, continuamos muitas vezes a tentar adaptar as crianças ao sistema.

Um problema biopsicossocial

Importa reiterar: a deficiência não está na pessoa. A cegueira não define o ser humano, tal como a surdocegueira não limita a dignidade de ninguém. A deficiência é, acima de tudo, o resultado da interacção entre as limitações sensoriais e um ambiente físico, social e comunicacional que não acolhe, não adapta, não inclui. A perspectiva biopsicossocial da deficiência obriga-nos a reformular políticas, atitudes e práticas.

Visão para o futuro

No Dia Mundial da Bengala Branca, é essencial exigirmos mais do que palavras bonitas. É preciso acção concreta, financiamento, formação, adaptação e fiscalização. E, acima de tudo, é preciso escutar as vozes de quem vive esta realidade — e não falar em seu nome.

Só assim poderemos, um dia, deixar de ser uma sociedade que, embora veja, continua sem visão.

(c)Manuela Ralha




Comentários

  1. Esses problemas infelizmente estão tão longe de ser resolvidos, estamos muito atrasados e sem pressa de chegar ao sítio certo, e sinto muito por isso... Estamos em 2025, estamos já no futuro

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  2. Olhando para o passado houve um caminho positivo contudo muito há a fazer . Que seja sempre a evoluir 🌻

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