Trilogia “Entre o Cuidar e o Pertencer” - Ensaio I - O Cuidar como Resistência
Ambiente sonoro: Alexis Ffrench — Bluebird · YouTube
Piano íntimo e luminoso: ternura que persiste, esperança que age — o timbre do cuidar como resistência.
“Cuidar é tudo o que fazemos para manter, continuar e reparar o nosso mundo, de modo a podermos viver nele o melhor possível.” — Joan Tronto
O verbo cuidar encerra uma das mais antigas perguntas humanas: como viver juntos? Na sua aparente simplicidade, contém a tensão entre vulnerabilidade e responsabilidade, entre liberdade e laço. Cuidar é reconhecer que a vida humana não é autossuficiente — que precisamos uns dos outros para existir com plenitude. E, no entanto, é também o gesto que garante a autonomia, porque apenas o cuidado verdadeiro liberta. Não se trata de proteger da vida, mas de possibilitar a vida.
Vivemos num tempo que celebra a eficiência e a velocidade, mas que esquece a presença e a delicadeza. A indiferença tornou-se estrutural, e a fragmentação das instituições espelha-se nas relações sociais. Por isso, cuidar é hoje um ato de resistência: resistir à desumanização, à solidão, à pressa, à tentação de reduzir o outro a número ou estatística. Cuidar é uma forma de restituir o sentido político da convivência, porque o político começa exatamente aí — no reconhecimento do outro e na recusa de o deixar para trás.
Este cuidar não é caridade nem tutela. Não é gesto piedoso, mas ação partilhada. Não se trata de fazer por, mas de fazer com. Cuidar é o que permite que cada pessoa possa fazer por si, em comunidade. É o cuidar que emancipa, que reconhece o outro como sujeito, que cria condições para que a autonomia floresça. É o cuidar que estrutura a democracia do quotidiano — nas relações, nos territórios, nas redes. Cuidar é o fio ético que sustenta o humano.
O fundamento ético do cuidar
Assenta no respeito incondicional pela dignidade humana, na responsabilidade perante a vulnerabilidade do outro e na consciência de que a interdependência é a condição primeira da vida em comum. Cuidar é reconhecer que nenhum ser humano é uma ilha — que a nossa existência se tece de laços, presenças, olhares que nos sustentam e mãos que nos amparam. A falácia da independência total esvaziou o sentido do comum. Cuidar é, por isso, um gesto de restituição: devolver humanidade à relação, tempo à escuta, voz a quem foi tornado invisível.
O cuidar é também um ato de justiça: a justiça, sem cuidado, é fria; o cuidado, sem justiça, é cego. Como lembra Paul Ricoeur, ética é “o desejo de uma vida boa, com e para os outros, em instituições justas”.
O cuidar em rede: política de proximidade e democracia do quotidiano
Cuidar, em comunidade, é agir com os outros para transformar a realidade. Traduz-se na criação de redes de parceria alargadas — concelhias e de freguesia — que congregam instituições, autarquias, serviços públicos e cidadãos, numa lógica de cooperação e subsidiariedade. Estas redes constroem malha social de proximidade, capaz de detetar, compreender e acompanhar as situações de vulnerabilidade, e de resolver com recursos locais as necessidades concretas.
O cuidar vive também nas redes informais de solidariedade — vizinhança, entreajuda, afeto — microdemocracias do quotidiano feitas de gestos simples: uma sopa à porta, uma ida ao centro de saúde, uma palavra que substitui o silêncio. Destas presenças nasce a confiança social que nenhuma instituição legisla.
O cuidar como reconstrução do humano
Byung-Chul Han observa: num mundo de desempenho, cuidar é subversivo — exige tempo, presença e silêncio. Levinas recorda que “o rosto do outro é o início da responsabilidade”. E Tolentino Mendonça escreve: “Cuidar é estar presente. É dizer ao outro: a tua vida importa.”
Cuidar é condição do humano. Do primeiro olhar na infância aos gestos derradeiros, é o cuidado que sustém a vida e lhe dá sentido. Ao cuidarmos dos outros e de nós, reconstruímos continuamente a nossa humanidade. Nos contextos de maior fragilidade, o cuidado empodera e restitui cidadania: cria espaço para a voz do outro e para a sua participação nas decisões sobre a própria vida.
Cuidar é recomeçar o mundo nos pequenos gestos. É fazer política com alma; é esperança ativa que resiste à apatia. Sustenta o mundo nas mãos abertas — onde cabe a fragilidade de todos e o sonho de um futuro mais justo. A bondade é coragem; a esperança, ação. Cuidar é o caminho da esperança.
Sugestões de Leitura
- Tronto, Joan C. — Moral Boundaries (1993) e Caring Democracy (2013): o cuidado como categoria política e critério de justiça democrática.
- Gilligan, Carol — In a Different Voice (1982): ética relacional do cuidar, centrada na responsabilidade e na escuta.
- Ricoeur, Paul — O si-mesmo como um outro (ed. PT): “vida boa, com e para os outros, em instituições justas”.
- Arendt, Hannah — A condição humana (ed. PT): ação, aparecer e amor mundi no cuidar público.
- Han, Byung-Chul — A sociedade do cansaço (ed. PT): crítica à cultura do desempenho e apelo ao cuidado.
- Boff, Leonardo — Saber cuidar (1999): o cuidado como modo de ser e força regeneradora da vida.
Bibliografia (norma APA 7)
- Arendt, H. (2019). A condição humana (M. L. Reis, Trad.). Relógio D’Água. (Obra original publicada em 1958)
- Boff, L. (1999). Saber cuidar: Ética do humano – compaixão pela Terra. Vozes.
- Fraser, N. (1997). Justice Interruptus. Routledge.
- Gilligan, C. (1982). In a Different Voice. Harvard University Press.
- Han, B.-C. (2014). A sociedade do cansaço. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 2010)
- Levinas, E. (2000). Ética e infinito. Edições 70. (Obra original publicada em 1982)
- Ricoeur, P. (2008). O si-mesmo como um outro. Edições 70. (Obra original publicada em 1990)
- Tronto, J. C. (1993). Moral Boundaries. Routledge.
- Tronto, J. C. (2013). Caring Democracy. NYU Press.
- Vachon, B. (2000). Le développement local: théorie et pratique. Gaëtan Morin.
- Tolentino Mendonça, J. T. (2018). Elogio da sede. Quetzal.
© Manuela Ralha, 2025

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