Nem a burca, nem a tesoura - artigo de opinião.
Há temas que regressam ciclicamente à praça pública, como se o país precisasse de distrações bem embrulhadas em moralidade. A burca é, uma vez mais, o pretexto.
Fala-se de liberdade, mas legisla-se sobre corpos. Fala-se de igualdade, mas decide-se sobre as mulheres — nunca com elas.
Considero a burca uma forma de repressão profunda e uma violação inaceitável dos direitos das mulheres. É abominável.
Mas também considero abominável que, em nome da libertação, se imponham novas formas de submissão.
Não é o pano que oprime — é a imposição, de um lado ou do outro.
A opressão não muda de nome só porque veste valores ocidentais.
Proibir, em nome da emancipação, é apenas trocar o véu da fé pelo véu do paternalismo.
Temos uma Constituição brilhante, profundamente humanista, que proclama no artigo 1.º que “Portugal é uma República baseada na dignidade da pessoa humana e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”
É essa dignidade que deve guiar as decisões, e não o medo disfarçado de zelo moral.
No artigo 13.º, consagra-se a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, sem distinção de origem, sexo, religião ou convicção.
E no artigo 41.º, afirma-se a liberdade de consciência, de religião e de culto, assegurando que ninguém pode ser perseguido ou privado de direitos por causa da sua fé.
O artigo 43.º, por sua vez, lembra-nos que “o Estado não pode programar a cultura ou a educação segundo quaisquer diretrizes ideológicas ou religiosas.”
É nesta arquitetura constitucional — e não nas modas do medo — que cabe o país que queremos ser: livre, plural, justo e consciente.
Não precisamos de copiar o que de pior existe lá fora.
A desculpa do “nos países muçulmanos também é assim” não nos serve.
Não queremos ser iguais — queremos ser melhores.
E enquanto nos perdemos em debates sobre o comprimento dos véus e das saias, esquecemos o essencial: a pobreza que cresce, a precariedade que corrói, o acesso à habitação que desaparece.
Como se os problemas reais do país se resumissem à burca, e como se a culpa fosse sempre dos estrangeiros.
O que está na base desta decisão é o medo e a intolerância —
e, nesse instante, tornamo-nos iguais aos que criticamos.
A liberdade perde-se sempre devagar, mascarada de zelo e de virtude.
E quando damos por isso, já não discutimos o direito de usar um véu — discutimos o direito de ser diferente.
“A diversidade das culturas humanas é não apenas legítima, mas necessária.”
— Claude Lévi-Strauss
Que não nos cubra o medo, mas a lucidez.
E que o tecido da nossa convivência seja feito de respeito, justiça e humanidade.N
Notas constitucionais
Artigo 1.º – República Portuguesa: “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”
Artigo 13.º – Princípio da igualdade: “Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, origem, religião, convicções ou condição.”
Artigo 41.º – Liberdade de consciência, de religião e de culto: “Ninguém pode ser perseguido, privado de direitos ou isento de obrigações por causa das suas convicções ou práticas religiosas.”
Artigo 43.º – Liberdade de aprender e ensinar: “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, políticas, ideológicas ou religiosas.”
© Manuela Ralha, 2025

Completamente de acordo. A Constituição a não ser cumprida, aproveitamento da alegada liberdade da mulher, e perda gradual de direitos e liberdades.
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