Trilogia “Entre o Cuidar e o Pertencer” — Ensaio II - A Cidade que Abraça



Ambiente sonoro: Philip Glass — Metamorphosis Two · YouTube

Esta peça minimalista de Philip Glass espelha a cidade descrita neste ensaio: orgânica, cíclica e humana. Os seus motivos repetidos evocam o ritmo do espaço público e o movimento da vida urbana, acompanhando a leitura sem a dominar.

“Para ler devagar, com o som de Philip Glass, como quem caminha por uma cidade que respira e acolhe.”
“As cidades são o reflexo das nossas escolhas morais.” — Richard Sennett (2008, p. 14)

A cidade é o espelho do humano. É o lugar onde o que somos se torna visível — nas ruas e nos silêncios, nas praças e nos muros, nos gestos quotidianos que desenham pertença ou exclusão. Cada rua guarda uma história, cada praça é um corpo de memórias. A cidade é, antes de mais, um espaço simbólico e cultural, um texto coletivo onde se escrevem as relações de poder, pertença e identidade.

Vejo a cidade como o prolongamento ético do cuidar. Uma cidade justa é uma cidade que acolhe, reconhece e inclui. Cuidar da cidade é cuidar das pessoas que nela habitam — dos seus corpos, das suas histórias, das suas fragilidades e esperanças. Uma cidade que abraça é uma cidade que escuta. E escutar é o primeiro gesto do cuidar.

Enquanto espaço democrático, a cidade deve ser um lugar de acesso e participação, onde todos os cidadãos — independentemente da sua origem, género, idade ou condição — possam usufruir livremente dos espaços públicos e participar nas decisões que moldam o seu quotidiano. Isto implica garantir acesso igualitário a bens e serviços coletivos e promover a participação popular na gestão urbana. A cidade é, portanto, uma arena de cidadania: o palco onde se concretiza a justiça social e se prova a qualidade da democracia.

O direito à cidade, conceito central de Lefebvre (2012), é mais do que o direito a usufruir do que já existe. É o direito a produzir uma cidade diferente, para além da lógica do capital — uma cidade que pertença ao comum e não apenas ao mercado. Ao produzir a cidade, produzimo-nos também a nós mesmos. A cidade que queremos está ligada à pessoa que queremos ser. Mudar a cidade é mudar o mundo — e o nosso modo de estar nele.

A transformação urbana exige uma mudança interior e coletiva. É necessário valorizar o “fazer com”, o “pensar com”, o “projetar com” e o “gerir com” — práticas que traduzem uma ética do cuidado aplicada à vida pública. Essa é a verdadeira democracia do quotidiano: a que se constrói nos gestos e nas decisões partilhadas. O espaço público é, assim, a expressão da dignidade coletiva — o lugar onde o cuidar se transforma em urbanismo, e o urbanismo em humanidade.

A cidade é o primeiro espelho da política. É nela que se torna visível a distância entre o que dizemos e o que fazemos. Uma cidade desigual é o reflexo de uma sociedade que desistiu de cuidar; uma cidade justa é a prova de que o cuidar se tornou política.

Lefebvre (2012) recorda que “o direito à cidade não é apenas o direito de visitar, mas o direito de transformar e reinventar a vida urbana” (p. 64). A cidade inclusiva é um processo, não um estado; uma construção permanente que exige participação, corresponsabilidade e escuta. Cuidar da cidade é abrir o planeamento à democracia, transformando-o num exercício coletivo de criação.

Harvey (2013) reforça: “o direito à cidade é, mais do que um direito individual, um direito coletivo à transformação de nós próprios, através da transformação das nossas cidades” (p. 23). Ao cuidar da cidade, cuidamos de nós — ao reconfigurar o espaço comum, reconfiguramos o humano.

Arendt (1958) via na polis o espaço onde a ação e a palavra ganham sentido: lugar do encontro e da pluralidade, onde o mundo se torna público e, por isso, humano. Uma cidade inclusiva é a que garante a possibilidade de aparecer, ser visto e ser ouvido, porque a exclusão começa no silêncio.

Sennett (2008) acrescenta o convívio entre estranhos: “a cidade aberta é a que acolhe a diferença, criando espaços de contacto e de tensão produtiva entre modos de vida diversos” (p. 37). O espaço público torna-se, assim, laboratório ético, onde se aprende a coexistir sem anular o outro.

Sen e Nussbaum (1993) lembram que o desenvolvimento — e, por extensão, a cidade — se deve medir pelas capacidades reais para viver com dignidade. Uma cidade é inclusiva quando amplia possibilidades de vida e cria capacidades. Bauman (2001) adverte contra cidades líquidas de laços frágeis: a cidade que abraça é a que reaprende a permanecer, cuidando dos seus tempos e lugares para tornar o habitar um gesto de pertença.

As cidades revelam-se no modo como tratam os seus espaços públicos. O espaço público é o rosto visível da democracia: o lugar onde todos se cruzam, onde a igualdade ganha corpo e onde o outro se torna presença. Cuidar do espaço público é cuidar da dignidade coletiva.

Jacobs (1961) observa: “as ruas seguras e vibrantes são o produto de uma multiplicidade de pequenos olhos que se preocupam uns com os outros” (p. 45). A vitalidade urbana nasce da convivência e da atenção mútua. Uma cidade que abraça cultiva proximidade, empatia e convivência.

Gehl (2015) insiste: “as cidades devem ser construídas para as pessoas e não para os automóveis” (p. 22). Uma cidade que cuida devolve o tempo ao peão e o diálogo ao espaço. Choay (2007) define o urbanismo como arte do espaço coletivo (p. 19): quando escuta e responsabiliza, o planeamento torna-se gesto civilizacional.

A Sociedade em Rede (Castells, 2005) traduz o novo paradigma: organização social descentralizada, tecida por redes de partilha. A Nova Agenda Urbana (ONU, 2016) retoma essa urgência: valorizar o comum, o encontro e a vizinhança; transformar o planeamento em exercício partilhado; devolver humanidade ao urbano. Trata-se de criar cidades que escutam.

A cidadania como identidade que se constrói ganha relevo onde convivem migrantes, refugiados e múltiplas pertenças. Freitas (2001) lembra que a cidadania tem vocação política, não burocrática. Jiménez (2017) fala da cidade como “método de pertença”. Isin (2008) sintetiza: “ser cidadão está inextricavelmente ligado a ser da cidade” (p. 8). O urbano é o território onde a solidariedade e a justiça se tornam tangíveis.

Nas redes locais e de vizinhança concretiza-se essa democracia do quotidiano: política de gestos e confiança. Cada rede é laboratório de cidadania e escola de escuta. Cuidar da cidade é cuidar dessa trama invisível que a sustenta.

A cidade é, simultaneamente, obra e espelho: constrói-se e constrói-nos. A topofilia de Tuan (1983) revela a ligação entre pessoa e lugar, entre lar e praça. Cuidar da cidade é cuidar dessa ponte — garantir a cada cidadão um lugar e uma voz.

A cidade que abraça compreende que o espaço público é o coração da democracia. Reconhece o valor de cada corpo, de cada voz e de cada gesto. Entende a hospitalidade como essência da convivência — o direito de todos a existir com dignidade no mesmo lugar. É a cidade que não se limita a acolher, mas que pertence a quem nela vive, trabalha, sonha e transforma. A cidade é, afinal, a forma física do cuidado — a casa maior onde a humanidade se revê.

Sugestões de Leitura Complementar

  • Lefebvre, H. (2012). O direito à cidade. Centauro.
  • Gehl, J. (2015). Cidades para pessoas. Argumentum.
  • Harvey, D. (2013). Cidades rebeldes. Edições 70.
  • Sennett, R. (2009). O artífice. Dom Quixote.
  • Nussbaum, M., & Sen, A. (1993). A qualidade de vida. Edições 70.

Bibliografia 

  • Arendt, H. (2019). A condição humana. Relógio D’Água.
  • Ascher, F. (2004). Os novos princípios do urbanismo. Terramar.
  • Bauman, Z. (2001). Modernidade líquida. Relógio D’Água.
  • Castells, M. (2005). A sociedade em rede. Fundação Calouste Gulbenkian.
  • Gehl, J. (2015). Cidades para pessoas. Argumentum.
  • Harvey, D. (2013). Cidades rebeldes. Edições 70.
  • Lefebvre, H. (2012). O direito à cidade. Centauro.
  • Sennett, R. (2009). O artífice. Dom Quixote.
  • Tuan, Y. F. (1983). Topofilia. Difel.
  • Isin, E. F. (2008). Acts of citizenship. Zed Books.

© Manuela Ralha, 2025

Comentários

  1. Como o MUNDO poderia ser mais leve se todos nós pudéssemos ser..
    Adorei mais 👏 uma vez o raciocínio e a vontade....somos sonhadores!!!
    Abracinho forte Manuela Ralha!!

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  2. Sem dúvida olhar a cidade é olhar o povo, a história, muitas vezes vejo isso na minha cidade. O povo parou de olhar realmente, tão envolvidos nos seus dilemas que passam a correr por ela! A cidade deixou de ser sentir amada, mas quem ouvia o povo pensava o contrário! Tanta história, tanta vida agora preenchida por um enorme vazio emocional! Foi a cidade que morreu? Fomos nós que a matamos! Será que na realidade isso não reflete a nossa maneira de estar e de ser.... Quem vive nestes ambientes não quer aceitar o que a cidade tem para oferecer! Exige que seja oferecido o que eles querem... Não há diálogo, somente insultos, mágoas e desilusão, mas acima de tudo negação! Negam categoricamente a responsabilidade da vida que têm! Obrigada por me ter ajudado a compreender a cidade....

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  3. Que cidade bonita tens dentro de ti. Não moro numa cidade, moro em Sintra. Acho que a Tua cidade é muito bonita mas utópica. Não existe ou as cidades são muitas ruas e olhares, dias e momentos. Uma cidade aqui e agora vista por cada um dos que comentam e sentem será outra coisa diferente. Obrigado Manuela pelo teu Humanismo, venham mais cidades utópicas! Zé Maria

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