Desabafo

 "A vida retrai-se ou expande-se na proporção da nossa coragem." — Anaïs Nin

Ambiente sonoro proposto enquanto "me" lê:
O Adagietto da 5.ª Sinfonia de Gustav Mahler — uma das páginas mais comoventes da história da música.
A sua melodia lenta e transparente acompanha o texto como quem caminha ao lado de uma alma cansada, mas viva; é uma música que consola sem prometer, que acolhe sem julgar. 

Há dias em que a vida se encolhe,
e o chão parece fugir devagar sob os pés.
Dias em que o corpo cansa,
e a alma apenas pede silêncio.

Aprendi a não temer esses dias.
Nem tudo tem de ser força — às vezes basta serenidade.
A serenidade de quem respira devagar,
de quem espera que a noite se dissolva,
de quem aceita o que não pode ainda transformar.

Já conheci o escuro, e nele aprendi a ver.
Há uma luz discreta que vive nas brechas da dor,
um fio quase invisível que me recorda: tudo passa.
Até o frio. Até o medo.

Não me move a ideia de vencer —
move-me a fidelidade mansa à vida.
Essa vontade de continuar, mesmo incerta,
de reconstruir o que se desfez,
de acreditar que cada recomeço é também uma forma de renascer.

É assim que caminho: imperfeita, mas inteira,
com as mãos cheias de passado e o olhar pousado no que vem,
sabendo que viver é isto —
cair, respirar fundo e continuar,
com a serenidade possível,
essa que não grita, apenas sustenta.

E assim sigo, sem pressa,
entre o que dói e o que floresce,
entre o que se perdeu e o que ainda virá,
com a serenidade de quem, mesmo cansada,
ainda acredita na vida.

Nota pessoal:
O Adagietto da 5.ª Sinfonia de Gustav  Mahler é uma das obras da minha vida.
Volto a ela regularmente — é nela que me reconstruo.
Sinto na sua música um regaço, uma compreensão para a minha dor,
a visão de quem a vida, ou o próprio Universo, também tentou derrotar através do sofrimento.
Mahler é, para mim, o compositor que mais profundamente soube unir a tempestade à claridade,
a tristeza e a dor à esperança,
a vulnerabilidade à beleza.
Na sua música, encontro sempre o caminho de volta a mim.

(c) Manuela Ralha



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© Manuela Ralha