A Construção do Comum — Ensaios sobre o Cuidar, o Habitar e o Pertencer - II Ensaio: Cidades que cuidam: o urbanismo inclusivo como projeto político e emocional
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Cidades que cuidam: o urbanismo inclusivo como projeto político e emocional
A cidade é mais do que um conjunto de edifícios e vias; é uma construção simbólica e afetiva, um espelho da forma como uma sociedade se organiza e se imagina. No modo como planeia os espaços públicos, desenha os transportes, ergue as escolas e cuida dos seus jardins, revela-se o grau de maturidade democrática de uma comunidade. Uma cidade acessível não é apenas aquela onde se circula — é aquela onde se pertence.
Henri Lefebvre (1968) definiu o direito à cidade como o direito de todos a participar na produção do espaço urbano e a usufruir das suas possibilidades. Esse direito, porém, tem sido historicamente desigual: o espaço urbano reproduz, muitas vezes, as exclusões sociais, económicas e simbólicas que atravessam a sociedade. As barreiras arquitetónicas são o reflexo físico das barreiras sociais. Um passeio demasiado estreito, um transporte sem aviso sonoro, uma biblioteca sem intérprete de Língua Gestual Portuguesa — tudo isto são modos subtis de dizer: “este lugar não é para ti”.
A cidade que não cuida torna-se uma geografia da desigualdade. Como escreve David Harvey (2012), “a forma urbana é o campo onde se materializam as relações de poder”. Planeamentos centrados no automóvel, na produtividade ou na estética da homogeneidade invisibilizam corpos que não se movem à mesma velocidade e experiências que exigem outras formas de presença. Uma cidade pensada apenas para quem se desloca depressa é, inevitavelmente, uma cidade que abandona alguém.
Urbanismo inclusivo: desenhar o comum
O urbanismo inclusivo nasce da consciência de que o espaço público é o primeiro laboratório da cidadania. Como lembra Carlos Fortuna (2012), “a cidade é simultaneamente espaço de encontro e de desigualdade”. Nela convivem — ou colidem — diferentes modos de estar no mundo. Planeá-la é, portanto, um ato político: decidir quem pode entrar, quem é visto, quem tem voz.
Jane Jacobs (1961) defendia que as cidades vivas são feitas de vizinhança, diversidade e confiança — de “olhos na rua” que geram segurança e cuidado mútuo. Essa teia de relações quotidianas é a base de uma cultura urbana inclusiva. Nas cidades que cuidam, o desenho urbano não se limita a cumprir normas técnicas: é um gesto de hospitalidade. Cada banco à sombra, cada rampa, cada semáforo sonoro são expressões concretas da democracia no espaço público.
Em Portugal, Nuno Portas (2015) e João Seixas (2010) alertaram para a necessidade de repensar o planeamento urbano como política de coesão social. Não basta investir em requalificação física: é preciso reconstruir os vínculos entre espaço e comunidade. A cidade inclusiva é também uma cidade emocional, onde as pessoas se sentem seguras, reconhecidas e úteis.
O cuidado como dimensão política
Cuidar é uma forma de justiça. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU, 2006) e a Nova Agenda Urbana (ONU-Habitat, 2016) colocam a acessibilidade no centro das políticas urbanas sustentáveis, afirmando que “sem acessibilidade universal, não há igualdade nem desenvolvimento humano”. O urbanismo inclusivo é, por isso, uma política do cuidado — e o cuidado é, como recorda Joan Tronto (2013), uma atividade vital que envolve responsabilidade e interdependência.
Teresa Sá Marques (2018) defende que o planeamento urbano deve integrar o cuidar como dimensão estratégica, reconhecendo a vulnerabilidade como elemento intrínseco à vida urbana. Ao contrário do discurso da eficiência, que valoriza a velocidade e o rendimento, o urbanismo inclusivo valoriza a lentidão, a empatia e a convivência. As cidades que cuidam são aquelas que resistem à desumanização dos ritmos contemporâneos — aquelas que dão tempo e lugar ao outro.
Entre a justiça espacial e a ética da presença
A justiça espacial, conceito desenvolvido por Edward Soja (2010), propõe que a distribuição do espaço e dos seus recursos é uma extensão direta da justiça social. Assim, a exclusão física — um transporte inacessível, uma escola sem elevador — é também exclusão simbólica e política. Como sublinha Fernando Fontes (2019), “a acessibilidade urbana é o espelho da maturidade democrática de uma sociedade”. Quando uma cidade é desenhada para todos, a democracia torna-se visível; quando não é, torna-se apenas retórica.
Mas há também uma dimensão emocional que não pode ser esquecida. Richard Sennett (2018) fala da cidade aberta como aquela que aceita a imperfeição, o improviso e a diversidade — uma cidade que não teme a diferença, mas a acolhe como parte da sua beleza. Martha Nussbaum (2011), na sua teoria das capacidades, reforça que a verdadeira justiça é a que permite a cada ser humano “viver com dignidade, exercendo plenamente o corpo e a mente no espaço que habita”.
O urbanismo inclusivo é, assim, o encontro entre a justiça e a ternura — entre o planeamento e a ética da presença. Planeamos com técnica, mas habitamos com emoção. E uma cidade só é plenamente habitável quando reconhece a vulnerabilidade não como fraqueza, mas como expressão da nossa humanidade partilhada.
Cidades sensíveis: o futuro possível
Nas cidades que cuidam, o espaço público não é cenário, é relação. O banco da praça torna-se lugar de descanso e encontro; o jardim é espaço de convivência intergeracional; o transporte acessível é instrumento de liberdade. Essas pequenas revoluções cotidianas são, na verdade, atos de justiça silenciosa.
Teresa Sá Marques (2018) designa-as como cidades sensíveis: territórios que integram o cuidado na política, na economia e na cultura. Cidades que planeiam para a diversidade e não para a homogeneidade. Cidades que sabem que cada corpo é uma medida legítima do espaço.
Quando Carlos Fortuna afirma que “a cidade é uma pedagogia do olhar”, recorda-nos que o modo como vemos o outro define o modo como desenhamos o mundo. E Fernando Fontes acrescenta: “a acessibilidade urbana é o espelho da maturidade democrática de uma sociedade”. Entre o olhar e o gesto, nasce o compromisso.
Cuidar da cidade é, no fundo, cuidar da democracia — a mais bela forma de arquitetura social que alguma vez inventámos. Porque a cidade que cuida não é a que brilha, mas a que acolhe.
Bibliografia
Barnes, C., & Mercer, G. (2010). Exploring disability: A sociological introduction (2nd ed.). Cambridge: Polity Press.
Fontes, F. (2019). Deficiência, cidadania e direitos humanos: Para uma sociologia da deficiência em Portugal. Coimbra: Almedina.
Fortuna, C. (2012). Cidades e urbanidades: Para uma sociologia da cidade e da vida urbana. Coimbra: Almedina.
Harvey, D. (2012). Rebel cities: From the right to the city to the urban revolution. London: Verso.
Jacobs, J. (1961). The death and life of great American cities. New York: Random House.
Lefebvre, H. (1968). Le droit à la ville. Paris: Anthropos.
Nussbaum, M. (2011). Creating capabilities: The human development approach. Cambridge: Harvard University Press.
ONU-Habitat. (2016). New Urban Agenda. Quito: United Nations.
Organização das Nações Unidas. (2006). Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Nova Iorque: ONU.
Portas, N. (2015). A cidade e a habitação. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Sá Marques, T. (2018). Cidades sensíveis: Planeamento, vulnerabilidade e coesão social. Porto: Edições Afrontamento.
Seixas, J. (2010). A cidade na encruzilhada: Governança urbana e cidadania. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais.
Sennett, R. (2018). Building and dwelling: Ethics for the city. New York: Farrar, Straus and Giroux.
Soja, E. (2010). Seeking spatial justice. Minneapolis: University of Minnesota Press.
© Manuela Ralha, 2025

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