A Política Somos Todos Nós: Indiferença é Também Escolha

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"A política é a arte de vivermos juntos." — Jacques Maritain

A frase do filósofo francês Jacques Maritain, pensador católico e humanista do século XX, condensa de forma admirável a essência da política: um exercício coletivo, quotidiano e inevitável. Contudo, esta verdade parece diluir-se no discurso contemporâneo, marcado por um desencanto generalizado. Muitos, ao proferirem frases como “não quero saber de política” ou “são todos iguais”, esquecem que essa recusa não os liberta da política — apenas os exclui do direito de a moldar.

Repensar o que é política
É urgente recuperar o sentido original da política, não enquanto arte de manipular ou conquistar o poder, mas como a capacidade de organizar a vida em comum, de tomar decisões sobre o bem-estar coletivo. Aristóteles, na Política, já o afirmava: “o ser humano é por natureza um animal político”. Não porque todos devam ser governantes, mas porque todos vivem em comunidade, onde as acções de uns inevitavelmente impactam a vida dos outros.
A política não é, pois, propriedade exclusiva dos partidos nem das elites. É um processo contínuo de construção social, visível tanto nos grandes debates nacionais como nas pequenas decisões locais. Manifesta-se também através da acção dos movimentos sociais, que assumem um papel central na revitalização democrática. Estes movimentos — frequentemente alheios às estruturas tradicionais do poder — têm vindo a afirmar-se como catalisadores de mudança, mobilizando consciências, denunciando desigualdades e trazendo para o espaço público temas muitas vezes ignorados pelas instituições formais. Seja na luta pela justiça climática, pela igualdade de género, pelos direitos das minorias ou pela dignidade no trabalho, os movimentos sociais contribuem para a renovação do tecido democrático, relembrando que a cidadania activa não se esgota no acto de votar.
A intervenção cívica, nas suas múltiplas formas — do associativismo às plataformas de cidadãos, das manifestações às petições, passando pela participação em conselhos locais ou fóruns deliberativos — representa um instrumento fundamental para a inclusão e para o equilíbrio de forças num sistema por vezes capturado por interesses particulares. Recusar participar deste processo não é um gesto neutro: é, na verdade, uma forma passiva de legitimar o status quo, permitindo que outros decidam em nome de todos, mesmo quando não representam os interesses da maioria. A indiferença política alimenta a desigualdade, pois só favorece quem já detém o poder e os meios de influência. Numa democracia, o silêncio coletivo é, paradoxalmente, um dos ruídos mais perigosos.

A desilusão com os políticos: entre o ceticismo e a responsabilidade
A ideia de que “todos os políticos não prestam” tornou-se quase um lugar-comum no discurso público. E, na verdade, essa percepção não é totalmente infundada: escândalos de corrupção, promiscuidade entre interesses privados e públicos, decisões tomadas à revelia da vontade popular e uma crescente falta de transparência corroem, há décadas, a confiança na representação democrática. Pierre Rosanvallon lembra-nos, porém, que a crise da democracia representativa não deve conduzir à desistência, mas sim à reinvenção das formas de participação e escrutínio. Desacreditar o sistema sem procurar alternativas concretas é abrir caminho ao populismo, à radicalização e à apatia cívica — sintomas visíveis de uma cidadania fragilizada.
Esta desilusão é compreensível, mas deve ser sociologicamente enquadrada. Pierre Bourdieu referia-se ao “campo político” como um espaço com regras e dinâmicas próprias, muitas vezes desconectadas das vivências quotidianas das classes populares. Essa autonomização, associada ao tecnocratismo e à linguagem fechada da política institucional, reforça a perceção de afastamento. Zygmunt Bauman, por sua vez, falava da política contemporânea como parte da "modernidade líquida", onde tudo se torna volátil, instável e consumível — inclusive as ideologias, as propostas e os compromissos políticos. É neste cenário que Colin Crouch introduz o conceito de post-democracia, descrevendo regimes onde, apesar de eleições livres, o debate público e a deliberação real são progressivamente esvaziados, ficando os processos decisórios nas mãos de uma minoria bem organizada, frequentemente influenciada por interesses económicos.
Ainda assim, é fundamental não confundir o falhanço de alguns agentes com o fracasso do ideal democrático. Recusar a política porque alguns falham no seu exercício é tão irracional como abandonar a medicina por haver maus médicos. A vigilância crítica deve coexistir com a responsabilidade cívica. Como dizia Norberto Bobbio, a democracia é um processo inacabado e exigente, que precisa da intervenção constante dos cidadãos. Numa sociedade democrática, não existe neutralidade: ou se participa, ou se é governado sem voz.
Importa também romper com a narrativa totalizante que coloca todos os políticos no mesmo saco. Apesar dos casos de abuso e oportunismo que alimentam o descrédito, muitos homens e mulheres dedicam-se à causa pública com seriedade, ética e espírito de serviço. Trabalham, muitas vezes longe dos holofotes, em contextos adversos e com grande sacrifício pessoal. É também sua responsabilidade reconstruir a confiança dos cidadãos, mas é dever da sociedade reconhecer que a política digna continua a existir — e que só prosperará se for apoiada, exigida e defendida por uma cidadania activa.
O cepticismo, quando informado e construtivo, é sinal de maturidade democrática. Mas quando se transforma em cinismo paralisante, alimenta exactamente aquilo que pretende combater: a concentração do poder e a exclusão do cidadão comum dos processos decisórios. Por isso, mais do que nunca, importa participar. Não para aceitar tudo, mas para recusar a indiferença.

O papel transformador das redes sociais
Nas últimas duas décadas, as redes sociais têm desempenhado um papel ambivalente no panorama político: por um lado, democratizam o acesso ao espaço público e potenciam novas formas de participação; por outro, agravam fenómenos de polarização, desinformação e desgaste da representação. Este duplo impacto exige uma análise crítica e equilibrada.
Um dos efeitos mais preocupantes é a tendência dos algoritmos em filtrar e exibir conteúdos que confirmam as crenças e preferências dos utilizadores — fenómeno conhecido como filter bubble ou “bolha de filtro”. Como explicam Pariser (2011) e Sunstein (2017), esta lógica algorítmica reforça visões de mundo pré-existentes, limitando o confronto com opiniões divergentes e promovendo ambientes intelectualmente homogéneos. Este fenómeno contribui para a radicalização interna de grupos partidários, tornando os seus membros menos dispostos a ouvir e considerar perspectivas diferentes, o que empobrece o debate e acentua o facciosismo. O diálogo entre eleitores de diferentes espectros políticos torna-se assim mais difícil e, em última análise, menos produtivo. Para os eleitores indecisos ou em busca de informação crítica e plural para orientar o seu voto, este cenário pode ser especialmente prejudicial, pois a polarização reduz a disponibilidade para o compromisso e para a escuta activa.
Por outro lado, é inegável que as redes sociais têm desempenhado um papel relevante na mobilização política de sectores tradicionalmente afastados da esfera pública, em particular os jovens. Estes, muitas vezes desinteressados ou desiludidos com os canais tradicionais de representação, encontram nas redes um meio mais directo, horizontal e visualmente apelativo de contacto com os temas políticos que os afectam no quotidiano — das alterações climáticas à habitação, do feminismo ao antirracismo, da saúde mental à precariedade laboral. A participação de influenciadores digitais nestes debates, com linguagens acessíveis e formatos dinâmicos, tem contribuído para despertar o interesse político de novas gerações. Ao impulsionar campanhas virais e promover o envolvimento cívico em torno de causas concretas, estas figuras tornam-se agentes de politização informal. Tal visibilidade pode resultar num aumento da participação eleitoral e, por conseguinte, numa diminuição da abstenção — fenómeno que continua a marcar negativamente muitas democracias, incluindo a portuguesa.
No entanto, esta nova esfera pública digital não está isenta de riscos adicionais. A exposição excessiva e, muitas vezes, agressiva da vida privada de figuras públicas, nomeadamente políticos e políticas, tornou-se uma prática recorrente. As redes sociais não apenas encurtam a distância entre os eleitores e os representantes, como também esbatem as fronteiras entre o espaço público e o privado. Ataques pessoais, campanhas de difamação e intrusão nas vidas familiares dos políticos tornaram-se armas frequentes num ambiente cada vez mais hostil. Este tipo de exposição não só afeta emocional e psicologicamente os visados, como tem repercussões nos seus familiares, especialmente quando estes não escolheram viver sob o escrutínio público. A política, que já é por natureza exigente e conflituosa, torna-se ainda mais tóxica, afastando possíveis candidatos e candidatas de qualidade que não desejam submeter-se, nem às suas famílias, a este tipo de pressão mediática e digital.
É, por isso, imperativo que as plataformas digitais assumam a sua quota de responsabilidade. Devem garantir um ambiente de debate saudável, transparente e respeitador, combatendo activamente a desinformação, o discurso de ódio e o assédio. Só assim será possível maximizar os benefícios do potencial democrático das redes sociais e minimizar os seus riscos. Idealmente, as redes devem deixar de ser apenas espaços de debate — por vezes superficial e polarizado — para se tornarem verdadeiros motores de transformação democrática, onde a participação informada, o respeito pela diferença e o compromisso com o bem comum possam florescer.

Conclusão: entre o desinteresse e o compromisso
Recusar a política é uma ilusão perigosa. Mesmo na indiferença, estamos a tomar uma posição — e essa posição tem consequências. Como afirmou Hannah Arendt, “ser apolítico é, afinal, uma forma de ser político, ao abdicar da acção e da responsabilidade”. Se a política é, como dizia Maritain, a arte de vivermos juntos, então o desinteresse por ela é um acto de desresponsabilização para com os outros e para connosco próprios.
Num tempo em que o individualismo, o cansaço democrático e a velocidade da informação ameaçam a reflexão e o compromisso cívico, torna-se essencial resgatar a política como espaço de diálogo, construção e esperança colectiva. E isso começa, inevitavelmente, com cada um de nós.
Mas não basta afirmar esta necessidade — é preciso traduzi-la em prática. Participar politicamente não significa, obrigatoriamente, integrar partidos ou exercer cargos públicos. Significa, antes de tudo, cultivar uma atitude activa, crítica e informada perante os assuntos colectivos. Significa votar de forma consciente, exigir transparência, dialogar com respeito, combater a desinformação e recusar a indiferença.
Pode significar também envolver-se em associações locais, participar em assembleias de freguesia, apoiar movimentos sociais, ou até simplesmente iniciar conversas honestas e construtivas sobre política no espaço onde vivemos e trabalhamos. Pequenos gestos, somados, constroem grandes mudanças.
A democracia precisa de nós — e não apenas nas urnas. Precisa da nossa presença quotidiana, da nossa escuta, da nossa exigência e da nossa coragem. Num tempo em que tantos se afastam, fazer política pode ser, acima de tudo, um ato de cidadania solidária e consciente. Não sejamos meros espectadores do nosso tempo. Se a política é a arte de vivermos juntos, então está na hora de voltarmos a praticá-la — com responsabilidade, com humanidade e com esperança.

(c)Manuela Ralha

Sugestão de leitura:
Arendt, Hannah (1958). A condição humana. Lisboa: Relógio D’Água.
Bauman, Zygmunt (2000). Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar.
Bobbio, Norberto (1984). O futuro da democracia. Lisboa: Edições 70.
Bourdieu, Pierre (1999). O campo político. Lisboa: Campo das Letras.
Crouch, Colin (2004). Post-Democracy. Cambridge: Polity Press.
Pariser, Eli (2011). The Filter Bubble. New York: Penguin.
Rosanvallon, Pierre (2006). A contrademocracia. São Paulo: Manole.
Sunstein, Cass R. (2017). #Republic. Princeton: Princeton University Press.





Comentários

  1. Gostei muito de ler e partilho da mesma opinião. Sim, a indiferença politica dos cidadãos só favorece quem detém o poder e assim pode influenciar ou manipular decisões que contribuem para desigualdades inadmissíveisnuma sociedadeque se quer justa e de oportunidades iguais para todos. ,

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    1. Não sou anónimo Manuela, sou a Fernanda Pereira . Não sei porque não aparece o nome. Beijinho 😀😀

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  2. Há na verdade alguma falta de educação política numa grande parte dos cidadãos. Alguns não têm acesso a quem os ensine sobre os seus direitos e deveres e o próprio funcionamento do estado. E depois há outros contextos, como a pobreza e a vulnerabilidade que se sobrepõe á participação política. E há o desinteresse e a apatia social, onde se diz "isto não vai mudar nada" e os políticos são todos iguais. E o desinteresse enfraquece naturalmente a democracia. E também é muito importante a transparência e a ética na política. O voto consciente é uma forma poderosa de conseguir transformar o rumo. Viva a democracia.
    Noémia Casimiro

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    1. A escola é, por excelência, o espaço onde se inicia a construção da cidadania. Mais do que transmitir conteúdos académicos, a escola deveria cultivar valores, promover mais o pensamento crítico e incentivar a participação ativa na vida coletiva. É nela que se aprende a escutar, a argumentar com respeito, a reconhecer a diversidade e a assumir responsabilidades perante os outros. Ao integrar práticas pedagógicas, nomeadamente as que valorizem o diálogo, a cooperação e a reflexão ética, a escola prepara os alunos para serem cidadãos conscientes, capazes de intervir de forma informada e solidária nos desafios da sociedade. Num tempo marcado pela polarização e pela desinformação, o papel da escola ou da Biblioteca Escolar torna-se ainda mais crucial: formar indivíduos que não apenas dominem saberes, mas que saibam usá-los com responsabilidade, empatia e compromisso democrático.

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  3. Por vezes a ideologia de cada um não se enquadra no conceito de democracia parlamentar, o que parece ser um fator da tal diluição da participação cívica. Contudo, o “Homem é um animal político”, atenta a sua natureza espiritual e especial. Logo, a sua ausência de participação mais ou menos formal, mais ou menos anarca, traduz-se numa profunda contradição. É assim que nos vejo e que somos: contraditórios.

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