Prólogo — Trilogia da Sensibilidade


“Não é o coração que envelhece, mas a pele do tempo que o cobre.”

Albert Camus

Ambiente sonoro proposto enquanto lê: Max Richter – “On the Nature of Daylight”

Há na música de Richter o que há no humano: uma ferida que insiste em ser bela.

Escrevo porque não sei ficar indiferente. Porque o mundo, na sua pressa e no seu ruído, me fere quando esquece o essencial. Porque ainda acredito que as palavras podem ser abrigo e ponte, que a lucidez pode coexistir com a ternura, e que há uma ética no simples gesto de continuar a sentir.

Esta Trilogia da Sensibilidade nasce desse lugar: do espanto diante da frieza, da recusa da indiferença, e da necessidade de reencontrar no humano o que nele permanece intacto — a capacidade de se comover, de cuidar, de ser presença.

Vivemos tempos em que a pressa substituiu o encontro e a saturação silenciou o sentir. As palavras perderam densidade, os gestos perderam tempo, e o coração aprendeu a fingir que não se comove.

E, no entanto, há algo que resiste. Uma força mansa, feita de lucidez e ternura, que recusa a indiferença. É essa força — discreta, teimosa, humana — que dá origem a esta Trilogia da Sensibilidade.

Não é um manifesto nem uma teoria: é um exercício de permanência. Um modo de dizer que, apesar de tudo, a empatia ainda tem lugar.

São três movimentos — como uma peça musical: o silêncio dos que já não se comovem, a coragem de continuar a sentir, e o regresso à ternura como caminho.

Três tentativas de compreender o mundo sem o endurecer. Três gestos de resistência contra a indiferença que nos adormece.

Escrevo-os como quem acende uma pequena luz no nevoeiro — sem saber se alguém a verá, mas com a certeza de que acender é melhor do que desistir.

“Porque há silêncios que doem mais do que o ruído, e sensibilidades que salvam o que resta de humano.”

Trilogia da Sensibilidade

(c) Manuela Ralha 

Comentários

  1. Manuela, este texto tocou-me especialmente, não é fácil nos tempos que atravessamos resistir, acender a tal luz no nevoeiro mas se não resistirmos o que é que resta de nós?

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© Manuela Ralha