Dia Mundial da Música
Ambiente sonoro proposto enquanto lê: Beethoven – Adagio cantabile (Sonata “Patética” Op. 13) ou, em alternativa, Chopin – Nocturno Op. 9 No. 2. Estas duas peças foram escolhidas porque traduzem, em registos diferentes, a dimensão poética e emocional da música. O Adagio cantabile de Beethoven oferece a profundidade clássica, a ternura e a intensidade que acompanham o fio íntimo da narrativa. Já o Nocturno Op. 9 No. 2 de Chopin acrescenta um lirismo delicado, quase confessional, que envolve o leitor num abraço de melodia e esperança. Ambas sublinham, sem sobrepor-se às palavras, o espírito contemplativo e universal do texto.
“A música é a revelação mais elevada do que é mais profundo no ser humano.” — Beethoven
A música, universal e intemporal, acompanha a humanidade desde sempre, porque traduz o que temos de mais íntimo e de mais partilhado: a emoção. É linguagem sem fronteiras, capaz de unir povos, de criar comunidade e de devolver dignidade.
Foi numa coletividade de Cultura e Recreio que comecei a aprender música, ainda não tinha seis anos. Ali permaneci durante muitos anos, ao mesmo tempo que prosseguia os meus estudos em Lisboa. Esse espaço foi a minha primeira escola de sons, a casa onde a música se fez corpo e identidade.
Mais tarde, já como professora de Música, coube-me a dádiva de abrir portas a esse universo de sons e silêncios. Vi crianças e jovens descobrirem o encanto da primeira nota, a hesitação dos dedos inexperientes que, pouco a pouco, se transformava em confiança, em harmonia, em voz própria. Acompanhei-os no deslumbramento de sentir que a música não é apenas técnica, mas caminho, identidade, pertença. Foram anos de verdadeiro encantamento, que deram razão a Platão quando afirmava que “a música é um instrumento de educação mais poderoso do que qualquer outro.”
As Bandas Filarmónicas e as coletividades de cultura e recreio são, de facto, janelas abertas para um mundo mágico. Para muitas crianças e jovens, representam o primeiro contacto com a arte dos sons. Quem não tem posses para academias ou conservatórios encontra aqui a sua oportunidade. Oportunidade de aprender, de pertencer, de se afirmar. O trabalho que desenvolvem é absolutamente fundamental: inclusivo, intergeracional, democrático. São motores de inclusão social e cultural, que constroem comunidade através da música.
Na minha própria vida, a música foi o primeiro amor. Cresci entre o clarinete do meu pai, as canções da minha mãe, a bateria e o teclado dos meus irmãos, o meu saxofone, o piano e o canto dos primos. A sonoridade da família era um tecido de afetos e de notas. Depois do acidente, a música silenciou-se durante algum tempo. Regressou, mas não como executante — regressou como memória, como colo, como abrigo. Ainda assim, guardo a esperança: um dia voltarei a ela, porque a música nunca deixa de esperar por nós.
Leonard Bernstein dizia que “a música pode dar nome ao inominável e comunicar o desconhecido.” É isso que celebramos hoje: a capacidade da música de nos fazer inteiros, de nos devolver esperança, de nos lembrar que, afinal, todos partilhamos a mesma pauta da vida.
E neste Dia Mundial da Música, saúdo com gratidão e amizade todos os que fazem desta arte o seu amor e a sua vida.

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© Manuela Ralha