Trilogia "Entre o Cuidar e o Pertencer" - Prólogo

 



Abertura musical (enquanto lê): Mendelssohn — As Hébridas (Gruta de Fingal), Op. 26 · YouTube

Serenidade que une mar e silêncio, íntimo e universal — um respirar antes da palavra: o espaço entre o cuidar e o pertencer.

“O cuidar é um modo de viver e de transformar o mundo.” — Maria de Lourdes Pintasilgo

Vivemos um tempo em que a velocidade se confunde com progresso e a fadiga se tornou modo de vida. As palavras perdem espessura e os gestos, sentido. O mundo parece fragmentar-se em ilhas de solidão, onde a pressa substitui o encontro e a eficiência ocupa o lugar da escuta. E, no entanto, é no cuidar — esse verbo antigo e revolucionário — que continua a residir a chave da pertença, essa forma de amor cívico que nos liga à terra, às pessoas e à memória.

Depois da Trilogia da Sensibilidade, que foi escuta e travessia interior, esta nova trilogia nasce como prolongamento desse caminho: olhar o outro, o espaço público e o comum. Porque a sensibilidade, quando amadurece, transforma-se em responsabilidade, e o cuidar é o verbo que melhor a traduz.

Mas o cuidar de que falo não é tutela nem gesto assistencialista. Não se trata de fazer por alguém, mas com alguém, para que cada pessoa possa fazer por si, em comunidade. Cuidar é libertar, reconhecer o outro como sujeito e não como objeto de compaixão. É o cuidar que emancipa, que integra, que devolve voz e lugar. É abrir caminho, não impor direção. É reconhecer o valor das vidas antes das suas carências. Cuidar é o contrário da indiferença: é ato de resistência num tempo que banaliza o descuido.

Cuidar é também gesto político e poético. Político, porque sustenta a ética do comum; poético, porque reencanta o mundo com gestos que o tornam habitável. Cuidar é tecer redes, criar laços, sustentar comunidades — e, ao fazê-lo, reconstruir o humano.

Nesta trilogia, cruzo três dimensões: o cuidar como fundamento ético e social; a cidade como espaço de hospitalidade e inclusão; e a pertença como direito e promessa. Mais do que contemplação, estas páginas procuram caminho: como integrar cultura e afeto nas políticas públicas? Como reinventar redes de apoio e de vizinhança? Como fazer do cuidar eixo estruturante da cidadania?

Ao longo dos três ensaios — O Cuidar como Resistência, A Cidade que Abraça e Pertencer: o Direito a um Lugar no Mundo — procuro cruzar pensamento e prática, ética e ação, indivíduo e comunidade, para que a palavra se torne ponte.

Porque cuidar é o primeiro passo da pertença, e pertencer é o modo mais profundo de cuidar.

© Manuela Ralha, 2025

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