A Ética Política e o Perigo da Desinformação

 "O poder só é efetivado enquanto a palavra e o ato não se divorciam, quando as palavras não são vazias e os atos não são brutais..." — Hannah Arendt

Ambiente sonoro proposto enquanto lê: Hans Zimmer – Journey to the Line.
Escolhi este tema pela sua força ética e solene. A música cresce em intensidade, quase como um lamento que se transforma em chamamento moral. É uma peça que nos obriga a parar e pensar, colocando-nos perante a gravidade do que está em jogo: não apenas eleições, mas a própria dignidade da democracia.

A ética política é o alicerce sobre o qual se constrói a confiança entre cidadãos e instituições. Sem ética, a política converte-se em mero exercício de manipulação, esvaziada do seu sentido de serviço público. A história mostra-nos que sempre que a palavra se separa do ato, a democracia enfraquece.
As palavras de Hannah Arendt não poderiam ser mais atuais. Em vésperas de eleições autárquicas, assistimos à proliferação de perfis falsos, à disseminação de notícias fabricadas e ao envenenamento do espaço público com discursos de ódio. A desinformação não é apenas um detalhe ou uma prática menor: é um ataque direto ao coração da democracia.
O perigo é duplo. Por um lado, destrói-se a confiança entre palavra e ação, transformando a política em espetáculo de manipulação. Por outro, corrói-se a própria cidadania, porque um eleitorado que decide com base em mentiras está impedido de exercer plenamente o seu direito democrático de escolha livre e consciente. A desinformação rouba-nos não apenas a verdade, mas a capacidade de decidir sobre o nosso próprio destino coletivo.
O cenário torna-se ainda mais preocupante quando olhamos para o papel da internet e dos meios de comunicação. A velocidade com que a informação circula transforma boatos em certezas e rumores em manchetes. Notícias falsas, apresentadas com roupagem jornalística, espalham-se com eficácia, explorando medos e emoções coletivas. Quando os media são instrumentalizados como veículos de manipulação, deixam de esclarecer e passam a alimentar a ilusão.
Perfis falsos, alarmismos e discursos de ódio não são 'truques de campanha'. São instrumentos de corrosão do espaço público, que minam a confiança nas instituições e transformam adversários políticos em inimigos a abater. Quem se serve da mentira para conquistar poder já nos mostra, antes mesmo de governar, que não tem projeto de construção — apenas de manipulação.
O que está em causa não é apenas quem ganha ou perde eleições. O que está em causa é a qualidade da nossa democracia, a saúde do debate público, a confiança mútua que permite que uma comunidade se reconheça como tal. Se deixarmos que a mentira domine, arriscamo-nos a viver num espaço político onde já não importa o real, mas apenas o ruído; onde já não se decide com base no bem comum, mas na manipulação dos medos.
A democracia é exigente. Não floresce no terreno da manipulação, nem se sustenta em alarmismos fabricados. Exige transparência, responsabilidade e compromisso com o bem comum. Exige também cidadãos vigilantes, capazes de questionar, de confirmar factos e de desconfiar das promessas fáceis que escondem manipulações perigosas.
Em outubro, importa recordar: votar em quem propaga a desinformação é trair a própria democracia. Porque só a verdade constrói comunidades, só a ética política garante futuro, e só a palavra que corresponde ao ato pode criar novas realidades.

Manuela Ralha

Bibliografia
  • Arendt, H. (2001). A condição humana. Lisboa: Relógio D’Água.
  • Arendt, H. (2006). Entre o passado e o futuro. Lisboa: Relógio D’Água.
  • McNair, B. (2018). Fake News: Falsehood, Fabrication and Fantasy in Journalism. London: Routledge.
  • Wardle, C., & Derakhshan, H. (2017). Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making* Strasbourg: Council of Europe.
  • Norris, P., & Inglehart, R. (2019). Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism. Cambridge: Cambridge University Press.


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