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A mostrar mensagens de setembro, 2025

Justiça Social ou Ruptura: O Desafio Português no Século XXI

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Ambiente sonoro proposto enquanto lê : Carlos Paredes – “Verdes Anos” ( a guitarra portuguesa que ecoa memória e resistência, lembrando que a justiça social é tão portuguesa como a própria Revolução de Abril) “ Uma sociedade só é verdadeiramente humana quando garante a cada pessoa a dignidade que exige para si mesma.” A frase, que ecoa o espírito da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), poderia servir de epígrafe para o debate português sobre o futuro do Estado Social. A justiça social — entendida, nas palavras de Amartya Sen (2012) , como “a expansão das liberdades reais de que as pessoas usufruem” — não é ornamento político: é a infraestrutura invisível que sustenta a nossa convivência democrática. Em Portugal, esta infraestrutura ergueu-se com conquistas de Abril: Serviço Nacional de Saúde, escola pública universal, sistema de pensões, apoios sociais. Mas a sua solidez não é garantida. Há quem repita, com insistência, que “o Estado Social delapida os cofres públi...

Nova Lei de Estrangeiros: Regulação ou Exclusão Legalizada?

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  “Nenhum de nós é apenas de um lugar; somos todos feitos de encontros.” — Amin Maalouf Ambiente sonoro proposto enquanto lê: 1. “Cantiga da Emigração”, de José Afonso Esta canção é um lamento coletivo, uma evocação da dor, da distância e da resistência daqueles que deixaram Portugal em busca de melhores condições de vida. Ao escutá-la, lembramo-nos de que já fomos nós os que partiram, os que dependeram da compaixão alheia, os que sentiram na pele a solidão do exílio. É uma memória que nos obriga à empatia. https://www.youtube.com/watch?v=i5YkO1TY9xA 2. “Va, pensiero” – Coro dos Escravos Hebreus, da ópera Nabucco de Giuseppe Verdi Escolher esta peça não é uma coincidência estética, mas uma opção simbólica: representa o grito silencioso de um povo escravizado, arrancado da sua terra e privado da liberdade. Como os imigrantes que hoje enfrentam leis que os segregam, também os escravos hebreus sonhavam com um lar digno, com justiça e pertença. Esta música é uma ponte emocional entr...

Crónica – O Chamamento da Humanidade

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Ambiente sonoro proposto enquanto lê:   Bibo no Aozora – Ryuichi Sakamoto & Jaques Morelenbaum Porquê esta escolha: Piano e violoncelo entrelaçam-se num diálogo sereno que parece respirar com a voz. Sakamoto, artista comprometido com causas humanistas, e Morelenbaum, com a sua melodia cálida, criam uma peça que soa a encontro entre culturas e à compaixão universal. É música que envolve sem distrair, sublinhando a mensagem de fraternidade e igualdade do poema. Humanidade Cecília Meireles Não quero mãos que se fechem, mas que se unam. Não quero corações endurecidos, mas que se enterneçam. Não quero olhos altivos, mas que se olhem de igual para igual. Não quero a força que humilha, mas a que ajuda. Quero a igualdade do gesto que levanta todos do chão, e a claridade do olhar que reconhece em cada ser humano um irmão. Há  poemas que não se limitam a ser lidos: abrem portas. Humanidade, de Cecília Meireles, é um desses textos-chave. Ao repeti-lo, percebemos que cada ver...

Sonhar a Forma Justa

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Crónica de reflexão inspirada no poema de Sophia de Mello Breyner Andresen " Procuro a forma justa, aquela que é como um fruto antes de se mostrar, a forma da coisa exacta e justa, como o caule que sustenta a flor ou o desenho secreto do que cresce." — Sophia de Mello Breyner Andresen, A Forma Justa Ambiente sonoro proposto enquanto lê : Gibrán Alcocer – “Idea 15” Ambiente: Contemplativo, circular, íntimo. Porquê: Porque é uma música que evoca um pensamento que se vai moldando, como as mãos sobre o barro. A repetição subtil e a construção delicada da melodia acompanham a ideia de procurar, sonhar e resistir.  Há palavras que nos perseguem pela vida fora. Não porque sejam estridentes ou grandiosas, mas precisamente porque são simples e imensas. "A forma justa", de Sophia de Mello Breyner Andresen, é dessas expressões que se instalam em nós como quem abre uma janela: subitamente o mundo fica mais claro, mas também mais exigente. Sophia não escreveu apenas um poema. Es...

Não se “inclui” quem já cá está — uma chamada à responsabilidade

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“ Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos .” A frase de Salvador Allende continua tristemente atual. A palavra “inclusão” tornou-se, nos últimos anos, uma presença constante nos discursos políticos, institucionais, educativos e empresariais. Fala-se em incluir crianças com deficiência nas salas de aula, em incluir pessoas com mobilidade reduzida no mercado de trabalho, em incluir cidadãos neurodivergentes na vida cultural e comunitária. Mas raramente se questiona o que isso realmente quer dizer: incluir em quê, em que condições e a partir de que pressupostos? A própria palavra “inclusão” carrega uma armadilha. Parte da ideia de que alguém está “fora” — à margem, no exterior — e que existe um “dentro” legítimo, funcional e “normal”, que pode ou não abrir as portas, consoante a sua disposição ou boa vontade. Esta lógica é profundamente injusta. Ninguém deve ser tratado como convidado num mundo em que nasceu. O problema não está na d...

"A Montanha Mágica" e a Europa em Suspensão: Leituras Políticas para o Portugal Contemporâneo

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 “O tempo, dizem, é como a música: para ser sentido, precisa de ser vivido.”  Thomas Mann, A Montanha Mágica Ambiente sonoro sugerido para a leitura: Richard Strauss – “ Metamorphosen ” (1945), um lamento para cordas que traduz a melancolia europeia de Mann, ou Rodrigo Leão – “ Fronteira ” (2021), minimalismo português que prolonga o instante e convida à reflexão cívica. Publicado em 1924, o romance "A montanha mágica" permanece uma das mais significativas meditações literárias sobre tempo, doença, cultura e crise da modernidade. Hans Castorp, jovem engenheiro alemão, chega para uma breve visita a um sanatório nos Alpes suíços e ali permanece sete anos. Esse sanatório de Davos é mais do que cenário: constitui um microcosmo da Europa pré-Primeira Guerra Mundial, reunindo doentes de várias nacionalidades e tornando-se palco de debates ideológicos acesos. O isolamento físico simboliza a paralisia de um continente que, enquanto discute ciência, religião e política, ignora a doen...

A Arte que Nos Torna Humanos

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“O que ganhamos com a arte não é o que aprendemos com ela, mas o que nos tornamos por meio dela.” – Oscar Wilde Sugestão sonora para a leitura: Para acompanhar esta reflexão, escute Near Light , de Ólafur Arnalds – piano, cordas e electrónica subtil que evocam a serenidade das gravuras do Vale do Côa e o poder transformador da criação artística Muito antes de existirem leis ou moeda, o ser humano já pintava as paredes das cavernas. As mãos gravadas em Altamira ou em Chauvet não são apenas vestígios arqueológicos: constituem prova de que, desde os primórdios, a arte é linguagem fundadora da humanidade. Em Portugal, as gravuras rupestres do Vale do Côa , testemunho singular da criatividade paleolítica, confirmam que a necessidade de criar atravessa continentes e milénios. Antes da agricultura e da cidade, a experiência humana já se transformava em símbolo, cor, ritmo e mito. Pierre Bourdieu lembrava que “a arte é um campo de lutas” : um espaço onde se disputam significados, gostos ...

Solidariedade: fundamento ético e arquitetura social

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“Somos feitos de tempo e de gente. E só existimos porque alguém nos estendeu a mão.” — Mia Couto A solidariedade constitui, desde as origens do pensamento sociológico, um dos pilares da vida coletiva. Émile Durkheim , na obra Da divisão do trabalho social , distinguiu a solidariedade mecânica, enraizada em laços de semelhança, da solidariedade orgânica, própria das sociedades complexas, sustentada na interdependência e na cooperação. Mais de um século depois, esta reflexão mantém atualidade: a coesão de uma comunidade depende da capacidade de reconhecer a vulnerabilidade mútua e de criar mecanismos partilhados de apoio. Em contextos contemporâneos, a solidariedade assume duas dimensões complementares. Por um lado, é valor ético, expressão do reconhecimento de que a dignidade é um direito universal — como sublinha Hannah Arendt , “a essência dos direitos humanos é o direito de ter direitos ”. Por outro, é prática institucional e política: redes de proteção social, políticas públicas in...

Direitos que Não se Negoceiam: Portugal, Imigração e a Dignidade Humana

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Portugal conhece bem o que significa partir em busca de uma vida melhor. Durante décadas fomos um país de emigrantes, espalhados por todos os continentes, muitas vezes a trabalhar sem contrato ou visto, dependentes da solidariedade das comunidades que nos acolheram. Essa memória obriga-nos a olhar com honestidade para a questão da imigração que hoje nos atravessa. Nos últimos anos tem ganho força a ideia de que as crianças nascidas em território português, filhas de pais em situação irregular, “beneficiam de apoios para os quais nunca descontaram”. A frase, sedutora pela simplicidade, ignora princípios elementares de direito e de humanidade. A Constituição da República Portuguesa é clara: todas as crianças têm direito a cuidados de saúde, educação e proteção social, sem discriminação. O artigo 69.º não deixa margem para dúvida. E a Convenção sobre os Direitos da Criança, ratificada por Portugal, reforça que nenhuma criança pode ser punida pela situação administrativa dos seus pais. Est...

Pobres contra pobres: a engrenagem do medo

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“A mentira viaja meio mundo enquanto a verdade ainda está a calçar as botas.” – Jonathan Swift O populismo tem uma arte antiga: colocar pobres contra pobres. Enquanto os holofotes se viram para o “inimigo” da vez — o imigrante, o refugiado, o vizinho de sotaque diferente — os verdadeiros responsáveis pelas desigualdades continuam a mover-se nas sombras, intactos. É uma estratégia que não nasceu hoje. Vem de séculos de divisão, de quem sabe que o medo rende votos e poder. O preconceito nunca é inocente. Começa com pequenas frases repetidas até se tornarem “verdades” de café: “ eles recebem mais apoios do que nós”, “não querem trabalhar ”, “ estão a mudar o nosso bairro ”. São mitos que se espalham mais depressa do que qualquer dado oficial, porque se alimentam de emoções: a raiva, a frustração, a sensação de perda. Esses mitos fabricam uma falsa sensação de insegurança. As estatísticas mostram que a criminalidade tem vindo a diminuir em Portugal, mas a perceção de medo aumenta. Porquê? ...

Reflexão de fim de dia com muito cansaço: A caverna, o populismo e os paraquedistas do costume

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Platão, se soubesse o que o esperava, tinha registado a metáfora da caverna como patente intelectual. O homem explicou, com toda a paciência, que há gente acorrentada desde sempre, a olhar para sombras projetadas numa parede, convencida de que aquilo é a realidade. Mal ele sabia que, no século XXI, essas sombras iam ter edição em vídeo, voz distorcida, hashtags e milhões de visualizações. Hoje, vivemos dentro de cavernas digitais, alimentadas a algoritmos e a indignações instantâneas. As pessoas já não querem saber da realidade — querem é a sua versão preferida dela, embalada em memes e vídeos de 30 segundos. E claro, quando alguém tenta introduzir um bocadinho de complexidade na conversa, é logo acusado de ser “do sistema”, ou pior: de estar “a esconder a verdade”. É neste cenário que o populismo aparece em grande estilo — sem soluções reais, mas com muitas certezas berradas. Não resolve nada, mas entretém. Aponta o dedo, diz que “está tudo mal” e que “eles” — uma entidade mítica que ...

O Espaço Público Não É Neutro — É Político, e Deve Ser de Todos

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  “As cidades têm a capacidade de proporcionar algo para todos, só porque, e somente quando, elas são criadas por todos.” — Jane Jacobs Chega o Dia Europeu Sem Carros e, mais uma vez, desatam-se campanhas, slogans bonitinhos, bicicletas pintadas de verde e políticos em trotinete a fazerem figura para a fotografia. Durante uma semana, parece que nos preocupamos com a mobilidade, com o ambiente, com a cidade “mais humana”. Mas a realidade dura e crua é esta: o espaço público continua a ser pensado por e para quem o domina — e não para quem nele vive. É urgente recentrar o debate. Não basta falar de carros ou de transportes. Temos de falar de acessibilidade real , de mobilidade como direito , de democracia territorial . Porque, para muitos, a cidade, a vila ou a aldeia tornaram-se prisões silenciosas. Pessoas idosas, com mobilidade reduzida, com deficiência, ou simplesmente com ritmos diferentes da norma, ficam em casa não por castigo, mas porque o espaço que as rodeia deixou de l...