Crónica | Quando o ódio veste fato e gravata

Há momentos em que o silêncio se torna cúmplice. E há discursos que, ainda que proferidos sob a capa da legitimidade democrática, são tudo menos democráticos. O Conselho da Europa disse em voz alta o que muitos já sentem na pele: em Portugal, o discurso de ódio está a crescer, e com ele, a violência dos que usam a liberdade para a destruir por dentro.

Não é uma coincidência. O aumento dos crimes de ódio não é um fenómeno espontâneo: é alimentado por políticos que, ao invés de promoverem a coesão, preferem dividir. Que, em vez de construírem pontes, erguem muros. Que exploram medos, mentiras e estigmas para ganhar votos à custa da dignidade alheia.

Hoje, em pleno século XXI, ver grupos neonazis marcharem pelas ruas portuguesas não é apenas uma vergonha — é o resultado direto de uma escalada retórica que deixou de ser contida. Quando deputados falam de “limpezas”, quando candidatos incitam ao ódio contra migrantes, quando se criminaliza a pobreza e se racializa a insegurança, o que esperávamos que acontecesse?

A responsabilidade política é inegável. Quando se normaliza o discurso racista nas tribunas do Parlamento, quando se finge que o fascismo é só mais uma opinião no mercado das ideias, estamos a desmantelar silenciosamente as fundações da democracia. A história já nos mostrou onde este caminho leva. E os que hoje repetem “não sou racista, mas…” são os mesmos que amanhã assistirão, impávidos, à institucionalização do ódio.

Portugal merece mais. Merece líderes que defendam a Constituição, que façam da inclusão uma prioridade e da justiça social um dever. Não basta dizer que se é contra o racismo — é preciso combatê-lo com leis, com políticas públicas, com educação e com coragem.

Porque quem permite que o preconceito sente praça, acabará a viver num país onde a liberdade se torna privilégio — e o medo, norma.

Manuela Ralha



Comentários