Carta Aberta à Comunidade
Carta Aberta à Comunidade
Aos que servem e aos que são servidos,
O serviço público é, antes de tudo, um ato de entrega. Quem assume um cargo público, sobretudo nas autarquias, oferece o seu tempo, o seu esforço e, muitas vezes, parte da sua vida privada para trabalhar em prol da comunidade. É uma escolha feita com coragem, com convicção e com a consciência de que, a partir desse momento, cada decisão será escrutinada.
O debate de ideias é a força da democracia. A crítica construtiva é bem-vinda, necessária e saudável. É através dela que se corrigem erros, se encontram novas soluções e se fortalecem as instituições.
Mas o que não fortalece — o que corrói — é a ofensa gratuita, o insulto fácil e a difamação sem fundamento. É a voz que, escondida atrás de um ecrã ou de um telemóvel, lança juízos de valor sem conhecer a pessoa, sem saber o seu percurso, as suas lutas ou o seu trabalho.
O insulto gratuito não é apenas uma agressão momentânea — é um desgaste contínuo. Corrói a motivação de quem serve, mina a confiança e apaga, pouco a pouco, o entusiasmo inicial. Cada palavra lançada sem ponderação soma-se a um peso que, com o tempo, se torna difícil de carregar. O cansaço não vem apenas do trabalho exigente, mas da injustiça de ser atacado por aquilo que não se é, por distorções que não correspondem à verdade, por julgamentos feitos sem conhecimento nem empatia. A ofensa gratuita não constrói nada: apenas consome energia, rouba tempo que podia ser dedicado a resolver problemas reais e deixa marcas invisíveis que nem sempre se apagam.
Atrás de cada cargo público há um ser humano. Há famílias, amigos, afetos. Há noites mal dormidas, decisões difíceis, sacrifícios silenciosos. E há, sobretudo, a mesma vulnerabilidade que qualquer outro cidadão tem perante a injustiça das palavras.
Não se pede concordância absoluta. Pede-se respeito. É possível discordar sem destruir. É possível criticar sem humilhar. É possível defender convicções sem desumanizar o outro.
Porque se perdermos o respeito, não é apenas o diálogo que se quebra — é a própria base da democracia que se enfraquece.
Manuela Ralha

Comentários
Enviar um comentário
A escrita só se completa no diálogo. Se quiseres, deixa a tua reflexão.
© Manuela Ralha