Crónica | Calor, Críticas e os Especialistas de Bancada

Chega o calor, e com ele, aquela estranha pressão atmosférica que faz com que toda a gente, de repente, se lembre que existem câmaras, juntas e vereadores, como se fosse uma novidade digna de romper o scroll do Facebook entre fotos de gelados e queixas sobre praias cheias.

É nesta altura que quem passou o ano a trabalhar, a arranjar buracos na estrada, a resolver problemas com o coletor entupido, a levantar muros e barreiras que ninguém vê e a gerir orçamentos que dão para tudo menos para milagres, se vê forçado a explicar ao mundo o que andou a fazer. E o mais curioso é que os especialistas de bancada, que durante meses nada disseram, aparecem agora, de leque na mão e boné na cabeça, a exigir justificações em praça pública, entre um café morno e um abanão de calor.

Há um fenómeno curioso no verão português: o sol parece despertar uma veia crítica em quem nunca teve de coordenar uma obra, negociar com fornecedores ou enfrentar um munícipe que acha que o lixo se levanta sozinho durante a noite para ir para o contentor. Eles aparecem, indignados: “Então, o que fizeram vocês este ano?”, como se os passeios se calcetassem sozinhos ou os licenciamentos se despachassem num estalar de dedos.

Ser vereadora não é só cortar fitas e sorrir para fotografias. São relatórios, reuniões até ao fim do dia, ( e da noite), negociações para financiamento e críticas que chegam sempre: se arranjamos a estrada, foi “tarde demais”; se não arranjamos, “não queremos saber das pessoas”. Se plantamos árvores, “é só agora”; se não plantamos, “não há verde nesta terra”. Se ajudamos quem precisa, perguntam “porquê aqueles e não outros”. Se não ajudamos, “não fazemos nada pela ação social”. Se não recolhemos todos os monos e lixo de imediato, apesar da falta de pessoal, “não trabalhamos”. E, pelo meio, temos quem acha que os monos devem ficar na rua porque “alguém há-de vir buscar”, e quem acha que o lixo é invisível até ao dia em que fica no passeio. Há quem reclame dos pombos, dos cães e dos gatos, dos pássaros, dos morcegos, dos pavões, das galinhas e dos patos e quem nos acuse de não fazer o suficiente pelos animais abandonados ou em excesso e que reclame ruidosamente quando os recolhemos . E há sempre os que preferiam viver num território estéril, sem barulho, sem verde, sem vizinhos, sem nada nem ninguém – como se o silêncio e a solidão fossem a única forma de viver em comunidade.

Mas governar não é um título, nem um direito adquirido. É uma responsabilidade que não nos pertence, mas que nos é confiada temporariamente pelos nossos munícipes, que merecem todo o respeito e toda a dedicação. E é por isso que, mesmo quando o calor aperta e as críticas sobem de tom, continuamos a gerir prioridades e a tentar manter a freguesia viva e cuidada. E, na área social, somos muitas vezes colo e abraço. Somos quem ouve, quem ampara e quem procura soluções, mesmo sabendo que os recursos não chegam para tudo. Levamos connosco as nossas histórias pessoais, mas, todas as noites, somos assombrados pelas histórias daqueles que nos procuram e, sobretudo, por aqueles que não conseguimos ajudar. Porque, por detrás de cada pedido de ajuda, há um rosto, há uma vida, há alguém que confia em nós para encontrar um caminho que, muitas vezes, não existe. No meio disto, o calor faz-nos brilhar a testa nas visitas a obras e correr para debaixo de uma árvore depois de ouvir a vigésima queixa sobre estacionamento, mas, apesar de tudo, vale a pena. Porque mesmo que alguns prefiram criticar sem nunca ter feito, há sempre aqueles que agradecem o que se faz, mesmo que seja um simples banco de jardim onde possam descansar ou um dia em que se sintam escutados.

O sol vai continuar a brilhar e os críticos de verão a surgir como chapéus de praia ao primeiro fim-de-semana quente. Mas nós também continuaremos a trabalhar, porque governar uma terra não é apenas um cargo – é a responsabilidade de a deixar melhor do que a encontrámos, mesmo que nem sempre seja visível todo o trabalho que fica feito.

E é precisamente por isso que importa lembrar: é legítimo e democrático ter outras visões sobre a gestão e discordar das opções tomadas. Faz parte da liberdade que defendemos. Mas o que não é legítimo – nem digno – é mentir, espalhar informações falsas ou achincalhar o bom nome de quem aqui está todos os dias, debaixo de sol ou de chuva, a cuidar da sua terra e das suas pessoas.

No fim de contas, o verão passa, as eleições vêm e vão, mas as necessidades das pessoas ficam. E nós cá estaremos, com calor, paciência e humor, a continuar a trabalhar. Porque quem critica sem fazer estará sempre cá – tal como nós.

Manuela Ralha 

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