A ilusão da escolha e o destino da irrelevância.
Ambiente Sonoro sugerido (para ouvir enquanto lê): An Ending (Ascent) (Brian Eno) — drone contemplativo, oscilação entre silêncio e elevação;
ou Motion Portraits (Ryuichi Sakamoto) — piano e eletrónica que evocam espaço interior e tensão suave.
Uma das conquistas mais celebradas da modernidade ocidental foi a ideia de liberdade individual. Esta noção, central à tradição liberal, conferiu dignidade ao sujeito enquanto agente moral e racional, dotado da capacidade de escolha. No entanto, essa liberdade, tal como hoje se apresenta no contexto digital, encontra‑se fragilizada por um fenómeno mais subtil e mais perigoso do que a coerção: a simulação.
Vivemos rodeados de escolhas, mas já não sabemos se as fazemos ou se apenas respondemos a estímulos previamente arquitetados.
A questão fundamental da liberdade, na era da personalização algorítmica, já não se coloca entre o poder escolher ou não escolher, mas sim entre a autenticidade da escolha e a sua antecipação. Os algoritmos que gerem a nossa vida digital não nos impõem decisões — moldam‑nas. Operam com base em perfis comportamentais, históricos de consumo, padrões de interação e inferências emocionais. O que aparece como livre é, na verdade, funcionalmente induzido.
É neste ponto que Yuval Noah Harari propõe uma leitura particularmente inquietante do nosso tempo. Para o autor, o grande desafio do século XXI não reside na luta contra a opressão explícita, mas na ameaça mais insidiosa da irrelevância existencial do ser humano.
Deixamos de ser necessários enquanto decisores — porque a escolha foi automatizada.
Deixamos de ser necessários enquanto pensadores — porque a reacção substituiu a reflexão.
E deixamos até de ser necessários enquanto consumidores conscientes — porque os nossos comportamentos de consumo são hoje previsíveis com altíssima precisão algorítmica.
O sistema já não precisa de saber quem somos. Precisa apenas de saber o que faremos a seguir.
Esta frase aponta para uma mudança estrutural na forma como o sujeito é concebido nas sociedades digitais contemporâneas.
Durante séculos, o sujeito foi entendido como portador de interioridade — uma instância consciente, deliberativa, ética.
Mas hoje, essa dimensão foi substituída por dados.
Os sistemas que nos gerem não precisam de compreender os nossos valores, dúvidas ou intenções: basta‑lhes observar padrões e projetar probabilidades.
O sujeito, assim reduzido a um perfil estatístico, perde centralidade ontológica. A sua interioridade — enquanto espaço ético, reflexivo e imprevisível — é substituída por fluxos de informação que alimentam modelos preditivos. O valor já não está na intenção ou na deliberação, mas na frequência e na repetibilidade do comportamento.
Este deslocamento tem consequências profundas.
A singularidade é irrelevante. A consciência é redundante. O tempo da reflexão é disfuncional.
O que se espera do sujeito não é que compreenda o que faz — é que o faça, rapidamente e de forma quantificável.
A irrelevância não é a morte da presença. É a morte da agência.
Continuamos visíveis, ativos, operacionais — mas apenas enquanto operadores de sistemas que nos ultrapassam.
Harari antecipa, com preocupação, o surgimento de uma classe de humanos supérfluos: sem poder económico, sem relevância política e, pela primeira vez, sem função sistémica num modelo cada vez mais automatizado.
O que significa ser humano num mundo que já não precisa da humanidade para operar?
O que significa ter consciência num ambiente em que a eficiência se tornou critério absoluto?
A resposta, ainda em aberto, exige uma viragem crítica: não apenas contra o excesso de tecnologia, mas contra a abdicação voluntária da interioridade.
Porque o verdadeiro perigo não é sermos vigiados — é sermos integralmente previsíveis.
E previsibilidade absoluta significa, em última instância, dispensabilidade existencial.
Byung‑Chul Han descreve este fenómeno como parte de uma transição cultural em que o excesso de positividade e exposição dissolve a tensão crítica e o tempo da reflexão.
Vivemos num sistema que exige reação contínua, atualização constante, presença permanente — e que marginaliza o silêncio, a hesitação, a recusa.
A liberdade não está apenas em poder dizer “sim”. Está, sobretudo, na capacidade de dizer “não”.
Neste contexto, a liberdade torna‑se uma ficção funcional.
O sujeito é estimulado a escolher, a interagir, a consumir — mas dentro dos limites do previsível.
A escolha é permitida, mas não a deliberação.
A reação é incentivada, mas não o pensamento.
O que se perdeu não foi a liberdade. Foi a possibilidade de saber que ela já não está onde pensamos.
A alternativa a esta ilusão não está no abandono da tecnologia, mas na sua crítica permanente.
Implica restaurar o valor do pensamento como ato autónomo e interromper a normalização da previsibilidade como modelo existencial.
É necessário recusar a redução da liberdade a uma sequência de cliques, recusar a colonização da vontade por dispositivos que prometem conforto em troca de consciência.
Recuperar a liberdade não é um ato nostálgico. É um gesto profundamente contemporâneo.
É reassumir a responsabilidade pela própria interioridade, mesmo dentro de sistemas que tudo fazem para nos distrair dela.
Manuela Ralha
Bibliografia desta parte:
Han, B.-C. (2015). A sociedade do cansaço. Lisboa: Relógio D’Água.
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Han, B.-C. (2016). A sociedade da transparência. Lisboa: Relógio D’Água.
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Harari, Y. N. (2018). 21 lições para o século XXI. Lisboa: Elsinore.
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Sibilia, P. (2008). O show do eu: A intimidade como espectáculo. Lisboa: Relógio D’Água.
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