Pobres contra pobres: a engrenagem do medo

“A mentira viaja meio mundo enquanto a verdade ainda está a calçar as botas.” – Jonathan Swift

O populismo tem uma arte antiga: colocar pobres contra pobres. Enquanto os holofotes se viram para o “inimigo” da vez — o imigrante, o refugiado, o vizinho de sotaque diferente — os verdadeiros responsáveis pelas desigualdades continuam a mover-se nas sombras, intactos. É uma estratégia que não nasceu hoje. Vem de séculos de divisão, de quem sabe que o medo rende votos e poder.

O preconceito nunca é inocente. Começa com pequenas frases repetidas até se tornarem “verdades” de café: “eles recebem mais apoios do que nós”, “não querem trabalhar”, “estão a mudar o nosso bairro”. São mitos que se espalham mais depressa do que qualquer dado oficial, porque se alimentam de emoções: a raiva, a frustração, a sensação de perda. Esses mitos fabricam uma falsa sensação de insegurança. As estatísticas mostram que a criminalidade tem vindo a diminuir em Portugal, mas a perceção de medo aumenta. Porquê? Porque é útil. Uma sociedade com medo é mais fácil de manipular e menos exigente com quem a governa.

Hoje, o pudor de verbalizar o egoísmo e o preconceito quase desapareceu. O velho ódio contra quem é diferente — seja qual for essa diferença — e contra quem vem de fora deixou de se sussurrar em surdina: foi normalizado pelas redes sociais e amplificado por partidos da extrema-direita, que transformam insultos e estereótipos em arma eleitoral. O que antes se dizia apenas em voz baixa, agora é partilhado, comentado e aplaudido em público, como se a crueldade tivesse ganho estatuto de opinião.

Vivemos tempos em que a mentira encontra nas redes sociais o palco perfeito. Um valor inventado de “900 euros de subsídio” para imigrantes repete-se milhares de vezes, partilhado sem verificação, até parecer credível. Mas os factos são claros: os apoios sociais têm regras iguais para todos; a maioria dos imigrantes desconta para a Segurança Social, paga impostos e ocupa trabalhos que muitos recusam — na agricultura, na construção, na restauração, nos cuidados a idosos. São eles que, muitas vezes, mantêm vivo o sistema que garante as pensões de todos.

No meio deste ruído esquecemos o mais óbvio: as crianças são sempre crianças, independentemente da nacionalidade, da cor da pele ou da proveniência. Uma criança que foge de uma guerra, que atravessa fronteiras ou que nasce num bairro de imigrantes em Lisboa precisa exactamente do mesmo que qualquer outra: escola, cuidados de saúde, proteção, afeto. Negar isso é negar a própria ideia de humanidade.

O verdadeiro perigo não vem de quem chega com uma mala e esperança. Vem de quem explora a fratura social para capital político, de quem transforma o medo em programa eleitoral. O populismo alimenta-se da divisão: quanto mais desconfiarmos uns dos outros, menos questionamos os verdadeiros privilégios — a concentração de riqueza, a precariedade laboral, a falta de habitação acessível.

Combater esta engrenagem exige rigor e solidariedade. Significa recusar o boato fácil, procurar fontes credíveis, conversar — mesmo quando é mais cómodo ficar em silêncio. Significa reconhecer que a pobreza não tem nacionalidade, que a dignidade humana não se mede pela cor da pele, pelo passaporte ou pelo sotaque. É na verdade, na memória e na empatia que se constrói uma democracia adulta. O resto é barulho — um barulho perigoso que só serve a quem lucra com o medo.

Manuela Ralha



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