Sonhar a Forma Justa

Crónica de reflexão inspirada no poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

"Procuro a forma justa,
aquela que é como um fruto antes de se mostrar,
a forma da coisa exacta e justa,
como o caule que sustenta a flor
ou o desenho secreto do que cresce."

— Sophia de Mello Breyner Andresen, A Forma Justa

Ambiente sonoro proposto enquanto lê :

Gibrán Alcocer – “Idea 15”

Ambiente: Contemplativo, circular, íntimo.

Porquê: Porque é uma música que evoca um pensamento que se vai moldando, como as mãos sobre o barro. A repetição subtil e a construção delicada da melodia acompanham a ideia de procurar, sonhar e resistir. 

Há palavras que nos perseguem pela vida fora. Não porque sejam estridentes ou grandiosas, mas precisamente porque são simples e imensas.

"A forma justa", de Sophia de Mello Breyner Andresen, é dessas expressões que se instalam em nós como quem abre uma janela: subitamente o mundo fica mais claro, mas também mais exigente.

Sophia não escreveu apenas um poema. Escreveu uma forma de estar. De ser. De resistir.

“A forma justa” não é só a geometria da beleza. É a procura constante da harmonia entre o que dizemos e o que fazemos, entre o que sonhamos e o que construímos. É uma ideia que me inquieta — no melhor sentido da palavra — porque me obriga a perguntar: e eu? Vivo segundo a forma justa?

Não se trata de perfeição. Trata-se de coerência.
De dar às palavras a densidade das acções.
De não aceitar que o “é assim mesmo” seja suficiente.
De não ceder à preguiça ética, nem à estética do vazio.
De olhar a vida como se fosse uma peça de barro: a forma justa exige mãos sujas, paciência, escuta, tentativa.

Na política, na arte, na vida pública e na privada — onde está essa forma justa?
Será na transparência que se opõe ao cálculo?
Na delicadeza que se opõe ao ruído?
Na coragem de fazer o que está certo mesmo que ninguém veja?

Sonho, como tantos, com essa forma justa em tudo: no traçado das cidades, onde os passeios não devem ser armadilhas para quem caminha devagar; na educação, onde ensinar é mais do que despejar conteúdos — é cuidar do pensamento livre; na política, onde os discursos deviam rimar com a realidade vivida nos bairros, nas filas do centro de saúde, nas casas onde o silêncio pesa mais que a televisão ligada.

Sophia escreveu: “A forma justa é aquela que se levanta contra a deformação.”
E quantas formas deformadas nos pedem hoje que aceitemos como inevitáveis?

Há escolas onde se desiste de ensinar.
Hospitais onde se desiste de cuidar.
Ruas onde se desiste de acolher.
E tantas vezes, desistimos também de exigir a forma justa — como se a exigência fosse um luxo e não um dever cívico.

Eu, confesso, não sei viver sem esse sonho.
Sei que não o alcanço todos os dias.
Mas recuso-me a viver numa forma qualquer, sem linha, sem centro, sem sentido.
Quero a forma justa nos poemas e nos programas de governo.
Quero-a nas leis e nos laços.
Quero-a no modo como tratamos os outros — os próximos e os que não conhecemos.

E, sobretudo, quero a forma justa no modo como somos tratados por quem nos pede confiança.
Porque ser cidadão não é apenas votar. É vigiar a forma.
É exigir que a justiça seja mais do que palavra repetida em tribunais e manchetes.
É querer que a dignidade seja a regra, não a exceção.

Se este é um sonho, que seja.
Mas como dizia Sophia, “o mundo não é concluído” — e enquanto for inacabado, ainda há espaço para moldar, para resistir, para corrigir, para sonhar.

Sonhar, sim. Mas com os pés na terra, as mãos na obra, e o olhar virado para a forma justa.
Como quem sabe que a beleza, quando verdadeira, não se separa da ética.
Como quem sabe que não basta parecer — é preciso ser.

 Maria Manuela Pacheco Ralha

Porque assino com o meu nome completo sempre que o sonho me exige inteira.
Porque este texto também sou eu — com tudo o que penso, luto e acredito.



Comentários

  1. "Quando o homem sonha o mundo pula e avança"
    Boa noite amiga Manuela, enquanto houver pessoas do seu caráter.. vamos ter fé no futuro... isto é só um mau momento, eu acredito na juventude!!!
    Eu assino o seu pensamento...
    Manuel Feliciano Guerra Ferreira

    Bom descanso Guerreira 👌

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