Série " Entre Écrans e Silêncios " - Parte 5 — Reaprender a Fazer Perguntas
O último gesto de liberdade
A erosão da capacidade de pensar não acontece de forma visível ou imediata. É um processo lento, cumulativo, quase impercetível. Uma espécie de amorfismo interior — onde o sujeito deixa de ter contornos definidos, não porque foi violentamente anulado, mas porque foi progressivamente diluído na repetição, na reação automática, na exposição ininterrupta.
Byung‑Chul Han descreve esta condição como um tempo de esgotamento: não há confronto, apenas acumulação. Não há conflito, apenas desempenho. O outro já não é reconhecido como alteridade radical — é absorvido, domesticado, transformado em reflexo. A diferença deixa de ser desafio e passa a ser perturbação a evitar.
Mas pensar é mais do que organizar ideias. É sustentar o incómodo. É manter a ferida aberta. É aceitar que nem tudo se resolve, que há perguntas que não têm resposta imediata, e que a pressa com que procuramos soluções é, muitas vezes, uma forma de não suportar a profundidade do problema.
Reaprender a fazer perguntas é reaprender a viver fora do script. É recusar a normalização da resposta automática, da opinião pronta, do gesto repetido.
A urgência da crítica reside, hoje, na capacidade de manter viva a interioridade — esse espaço invisível onde o pensamento ainda se pode construir antes de ser exposto. Num mundo que exige visibilidade constante, a escolha de permanecer por instantes no escuro, no silêncio, na incerteza, torna‑se um ato profundamente político.
Pensar é resistir à dissolução do sujeito.
Perguntar é não ceder à lógica da inevitabilidade.
Escutar é não abdicar da responsabilidade.
Manuela Ralha
Biografia desta parte:
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Agamben, G. (2020). O que é o contemporâneo? Lisboa: Relógio D’Água.
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Han, B.-C. (2014). No enxame: Perspectivas do digital. Lisboa: Relógio D’Água.
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Han, B.-C. (2016). A expulsão do outro: Sociedade, percepção, comunicação. Lisboa: Relógio D’Água.
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Weil, S. (2023). A gravidade e a graça. Lisboa: Antígona.

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© Manuela Ralha