Crónica: Tratado sobre a (IN)Tolerância

“A intolerância é, em todos os tempos, o apanágio dos ignorantes.” — Voltaire

Voltaire, em pleno século XVIII, ergueu a voz contra o fanatismo, a crueldade e a cegueira dogmática com o seu "Tratado sobre a Tolerância". Fê-lo num tempo em que a justiça se confundia com vingança, e a religião, com ódio. O caso de Jean Calas — homem injustamente executado por ser protestante — serviu-lhe de pretexto para um libelo contra a barbárie travestida de fé e de moralidade. Escreveu com indignação, sim, mas também com clareza e método: que a razão deveria prevalecer sobre a superstição, e o diálogo sobre o dogma.

Terá, por certo, muito a dizer sobre os nossos dias.

Vivemos num tempo que gosta de se ver como esclarecido, progressista e civilizado. A informação circula à velocidade da luz, os direitos humanos são bandeiras omnipresentes, e a diversidade é celebrada em slogans e campanhas publicitárias. Mas, paradoxalmente, nunca estivemos tão prontos a silenciar, a excluir e a julgar. O tribunal da opinião pública substituiu os autos de fé, mas o espírito inquisitorial persiste. Mudaram os pretextos; a intolerância, essa, apenas se reinventou — agora mais subtil, mas nem por isso menos feroz.

O "Tratado sobre a (IN)Tolerância" dos nossos dias — se o quisermos escrever — não se fundaria em episódios isolados de injustiça, mas num clima social mais vasto: um ambiente onde discordar da mentira é pecado, pensar diferente é crime de lesa-maioria e tentar compreender o outro é, muitas vezes, interpretado como traição ideológica. Vive-se numa constante guerra de trincheiras, onde ninguém escuta verdadeiramente o outro. A convicção tornou-se impermeável à dúvida, e a dúvida, por sua vez, passou a ser vista como fraqueza moral.

E no entanto, a dúvida sempre foi o início de qualquer pensamento livre. Como bem sabia Platão — que, mais de dois mil anos antes de Voltaire, nos ofereceu a poderosa "Alegoria da Caverna". Os homens acorrentados dentro da gruta, habituados a ver apenas sombras projetadas na parede, recusam-se a acreditar em quem lhes mostra a luz do sol. O conhecimento, para eles, é desconfortável. A verdade, uma ameaça. A ignorância, por paradoxal que pareça, é confortável — e até desejada.

Hoje, as sombras já não são projetadas por tochas, mas por algoritmos. E a caverna é um ecrã, omnipresente e personalizado, onde cada um vê apenas aquilo que confirma as suas certezas. As correntes? Feitas de likes, partilhas e indignações instantâneas. Quem ousa sair da caverna e voltar com uma visão diferente do mundo é apedrejado — virtualmente, sim, mas com igual fúria.

E o mais inquietante é que muitos dos que se julgam fora da caverna apenas trocaram de parede.

Voltaire e Platão convergem numa lição essencial: o maior inimigo da liberdade não é o tirano — é a ignorância. A ignorância que nos impede de reconhecer a humanidade no outro. Que nos faz confundir opinião com ofensa, identidade com ideologia, convicção com verdade absoluta.

Tolerar não é abdicar de princípios. É aceitar que o outro possa pensar, sentir, crer de forma distinta — e, mesmo assim, ser digno de respeito. Mas este ato, tão simples na aparência, exige aquilo que mais parece faltar: maturidade emocional, humildade intelectual e vontade de escutar.

Num tempo em que a educação se mede em diplomas e a inteligência se confunde com assertividade, talvez devêssemos regressar à humildade socrática — aquela que reconhece no “só sei que nada sei” o início de qualquer diálogo verdadeiro. Porque a verdadeira tolerância não é passiva: é um exercício diário, paciente e imperfeito de convivência com o outro — e connosco próprios.

Este meu "Tratado sobre a (IN)Tolerância", em forma de crónica, não propõe soluções definitivas. Propõe, apenas, uma inquietação. Um espelho. Uma pergunta:

"Sou eu o ser humano livre que regressa da luz — ou apenas mais uma sombra na parede da caverna?"

Se não aprendermos a tolerar, não por indiferença, mas por respeito profundo, acabaremos todos a viver em cavernas separadas, gritando uns para os outros através da escuridão.

E aí, nem Voltaire, nem Platão, nem qualquer outro farol nos poderá valer.

Manuela Ralha



Comentários