Sobre a meritrocacia.. .
A meritocracia é um conceito sedutor. Em teoria, nada soa mais justo: cada pessoa alcança aquilo que merece pelo seu esforço, talento e dedicação. Mas a vida não é teoria. Na prática, não partimos todos da mesma linha de partida. Há quem inicie a corrida com escolas de excelência, acesso a saúde de qualidade e redes de apoio, enquanto outros carregam logo à partida o peso da pobreza, da exclusão, da desigualdade, do preconceito.
É aqui que a política se revela. A matriz liberal da direita, e sobretudo da extrema-direita, faz da meritocracia o seu mantra. Usa-a para reduzir problemas coletivos a responsabilidades individuais: se não tens bom emprego, se não consegues estudar, se não tens acesso a cuidados de saúde, a culpa é tua. É uma narrativa aparentemente justa, mas que na verdade mascara e perpetua privilégios. É o mesmo que organizar uma corrida onde uns partem metros à frente e outros quilómetros atrás, e chamar a isso justiça.
A matriz da esquerda parte de outro princípio: o mérito só pode ser reconhecido quando as condições de partida são minimamente iguais. Sem políticas de redistribuição, sem saúde e educação públicas de qualidade, sem proteção social contra as desigualdades herdadas, falar em meritocracia é apenas legitimar a exclusão.
A vida atual mostra-nos como este discurso é perigoso. Quando se invoca “mérito” sem falar de justiça social, o que se está a fazer é negar direitos básicos, é naturalizar a desigualdade, é transformar privilégios em supostas provas de esforço individual.
Por isso, sim, acredito na meritocracia. Mas não nesta que nos vendem como panaceia. Acredito nela apenas quando construída sobre um terreno nivelado, onde todos tenham acesso à dignidade, às mesmas oportunidades e aos mesmos direitos. Até lá, meritocracia sem igualdade não passa de um privilégio mascarado.
Manuela Ralha

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