Série "Entre Écrans e Silêncios " - Parte 2 — O Valor de um Clique

O mercado da atenção e a exploração da consciência

Ambiente Sonoro sugerido (para ouvir enquanto lê): Silent Flight Parliament (Bohren & der Club of Gore) — atmosfera ultrassilenciosa, batidas quase impercetíveis; ou Move Far Away, So Close (Harold Budd & Brian Eno) — ambient / piano e eletrónica suave para sentir a vigilância invisível ao fundo.

A tecnologia nunca é neutra. Mesmo quando parece facilitar, mesmo quando promete eficiência, mesmo quando se apresenta como solução. Há sempre, no fundo de cada interface suave e intuitiva, um projeto de mundo. E, mais do que isso: uma visão sobre o ser humano — sobre o que somos, o que valemos, e como devemos viver.

Vivemos hoje num ecossistema invisível, mas omnipresente, onde tudo é medido, registado, interpretado e usado. Cada acção aparentemente banal — um clique, um scroll, uma hesitação de segundos sobre uma imagem — é captada, processada e transformada em previsão. E cada previsão é, por sua vez, um instrumento de controlo.
Não um controlo coercivo, visível, totalitário, como o de 1984, de Orwell. O nosso mundo é mais subtil. O controlo não se impõe — seduz. Não limita — antecipa. Não proíbe — condiciona.

O capitalismo de vigilância não precisa de impor: basta‑lhe prever.

Shoshana Zuboff chamou‑lhe capitalismo de vigilância. Mas mais do que um modelo económico, é uma nova gramática da existência. Uma economia que já não depende apenas da produção de bens ou serviços, mas da extração sistemática da nossa atenção, do nosso comportamento, da nossa interioridade. Nós — ou melhor, os nossos dados — tornaram‑se a matéria‑prima mais lucrativa do século XXI.

Há quem diga que “se é gratuito, o produto és tu”. Mas a verdade é mais perturbadora:
Já não somos o produto. Somos o resíduo.
Os vestígios digitais da nossa experiência tornaram‑se o ouro do presente.

A nossa subjectividade foi convertida em matéria explorável. Os nossos hábitos, desejos, impulsos, hesitações — tudo é analisado, reduzido, vendido.
E nós agradecemos, porque é conveniente.

Mas o que significa viver num mundo onde cada gesto é observado, não por olhos humanos, mas por sistemas que não esquecem, não perdoam, e não dormem?

Não se trata apenas de privacidade — essa palavra já foi esvaziada de sentido. Trata‑se da erosão da liberdade interior. Da destruição lenta, mas contínua, da capacidade de agir fora do previsível.

Trata‑se da morte da espontaneidade.

Byung‑Chul Han escreve que vivemos na era do “psico‑poder” — um poder que não atua de fora, mas a partir de dentro. Não há repressão, apenas otimização. Não há censura, apenas autoexposição. Somos incentivados a partilhar tudo, a registar tudo, a medir tudo. E ao fazê‑lo, tornamo‑nos legíveis, manipuláveis, domesticados.

A promessa de personalização que tanto nos agrada é, na verdade, um processo de formatação. Não estamos a ser conhecidos — estamos a ser esculpidos por algoritmos cuja lógica desconhecemos, mas aos quais cedemos voluntariamente a nossa soberania.

Yuval Noah Harari alerta: talvez o perigo maior não seja o desaparecimento da humanidade — mas a sua irrelevância. Uma irrelevância que nasce quando deixamos de ser agentes, sujeitos, e passamos a ser variáveis estatísticas num sistema que já decidiu por nós.

A liberdade não se perde de uma vez. Perde‑se em parcelas, com consentimento.

Poder‑se‑ia perguntar: onde está o problema, se tudo isto torna a vida mais simples, mais cómoda, mais adaptada às nossas preferências?

Mas essa pergunta já revela o sintoma. Porque talvez a questão não devesse ser “é conveniente?”, mas sim “é humano?”.
E mais ainda: quem me torno, quando tudo é previsto antes de ser vivido?

Estamos a entregar o nosso tempo, os nossos afectos, a nossa memória — e com eles, a própria ideia de liberdade.
Mas talvez ainda não seja demasiado tarde para recusar esta forma de existir como dados flutuantes num mar de algoritmos.

Talvez o ato mais radical, hoje, seja reaprender a resistir à sedução da previsibilidade.
Talvez o mais urgente seja reverter o olhar. Observar quem nos observa. Interrogar o que parece neutro.
E perguntar: até onde estou disposto a ir para continuar a ser visto — e o que estou a perder, enquanto isso acontece?

Manuela Ralha

Bibliografia desta parte:

  • Han, B.-C. (2015). Psicopolítica: Neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Relógio D’Água.

  • Harari, Y. N. (2018). 21 lições para o século XXI. Elsinore.

  • Zuboff, S. (2020). A era do capitalismo de vigilância: A luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. LeYa.


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