Série "Entre Écrans e Silêncios " - Parte 1 — A Ilusão da Conexão
Viver em rede e morrer por dentro
Ambiente Sonoro sugerido (para ouvir enquanto lê): Spiegel im Spiegel (Arvo Pärt) — notas longas, espaço entre o som, silêncio que permite respirar. Ou Structures from Silence (Steve Roach) — ambiente suave, ideal para entrar no texto com atenção calma.
Há uma estranha forma de silêncio que se instalou entre nós. Não é ausência de som — é ausência de presença. Estamos sempre em contacto, dizem. Sempre disponíveis, sempre acessíveis, sempre a par do que se passa. Mas essa presença que se reivindica contínua é, na verdade, uma sucessão de ausências: fragmentos de atenção, estados transitórios de semiconsciência, ligações instáveis com tudo e com nada ao mesmo tempo.
Não é que estejamos mais sós — é que nos habituámos a uma forma nova de solidão, mais insidiosa: aquela que se esconde por detrás de uma aparência de ligação constante. Uma solidão disfarçada de atividade, de partilha, de participação. Mas em quantas dessas interações há real encontro? Em quantas há escuta, entrega, vulnerabilidade?
A tecnologia não criou esta condição — mas amplificou‑a, acelerou‑a, moldou‑a à sua imagem. Criou um mundo onde estar já não exige corpo, nem tempo, nem atenção. E, nesse processo, desaprendemos o que é realmente estar com alguém. Mesmo connosco.
Não se trata de saudosismo. Não se trata de opor o mundo digital ao mundo “real”, como se fossem realidades estanques. O digital não é um território paralelo — é o novo solo onde a vida se desenrola. E é precisamente por isso que importa perguntar: o que estou a sacrificar para estar permanentemente presente nesse território?
Vivemos num mundo de presença contínua e consciência intermitente.
A atenção — esse bem escasso — foi diluída em notificações. A interioridade foi substituída pela performance. A presença tornou‑se disponibilidade: para reagir, para consumir, para não faltar. Mas a pergunta que fica no ar é esta: a quê, exatamente, é que não quero faltar?
É aqui que se revela o paradoxo: estou cada vez mais presente em tempo real — mas ausente de mim própria. A consciência foi invadida por estímulos que não escolho, por ruídos que confundo com informação. Vivo em reação constante, e confundo isso com vida. Esqueço que sentir demora. Que compreender exige silêncio. Que a presença verdadeira não se mede em “visto às...” nem se manifesta em pequenos corações vermelhos.
Esta nova forma de estar é simultaneamente escolha e automatismo. Ninguém me obrigou. Mas também ninguém me ensinou a resistir. Entrei no jogo porque todos entraram. E agora, sair parece uma forma de exclusão.
Mas o que há, no fundo, nesse espaço de silêncio que evito? O que encontraria se não estivesse sempre a fugir para o ruído?
Esta é apenas a primeira inquietação de muitas.
Manuela Ralha
Han, B.-C. (2014). No enxame: Perspectivas do digital. Relógio D’Água.
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Turkle, S. (2017). Sozinhos juntos: Porque esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros (P. Simões, Trad.). Lua de Papel. (Obra original publicada em 2011)
Rosa, H. (2019). Aceleração e alienação: Para uma teoria crítica do tempo na modernidade tardia (J. Rodrigues, Trad.). Edições 70.

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