Ode ao Elevador da Glória

Ode ao Elevador da Glória

Ontem, ao saber do trágico acidente com o Elevador da Glória, um aperto instalou-se-me no peito — desses que vêm de um lugar fundo da memória, onde moram os dias que já não voltam. Apanhei tantas vezes aquele elevador nos Restauradores, fosse a caminho do Bairro Alto, onde estudei, ou em direção ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, sempre com Lisboa a respirar por entre as colinas.

Lembro-me bem de subir naquela carruagem de madeira antiga, com os estalos dos trilhos a marcar o compasso da cidade. À minha frente, a Federação da Área Urbana de Lisboa do Partido Socialista, onde tantas vezes entrei com o coração cheio de ideais, debates e projetos. Era um tempo em que o futuro parecia caber todo ali, naquela rua inclinada, entre a esperança e o trabalho.

E também as vezes em que, ao sair do elevador, seguia para São Roque — umas vezes para me sentar na penumbra da igreja, a escutar concertos de uma beleza quase divina; outras, para me perder na coleção de arte sacra do museu, entre relicários, retábulos e silêncios.

O Elevador da Glória fazia parte de tudo isto. Não era apenas um meio de transporte — era um ritual, uma companhia discreta nas subidas e descidas da vida, um fio condutor entre a cidade de dentro e a cidade de fora.

Hoje, ao saber que aquele mesmo percurso foi palco de dor e de perda, custa-me aceitar que algo tão enraizado na memória da cidade possa ter-se transformado em tragédia. Penso nas vítimas, nas suas famílias, no inesperado que lhes caiu em cima, e sinto que lhes devemos mais do que um lamento — devemos-lhes um compromisso com a memória e com a responsabilidade.

Que o Elevador da Glória volte um dia a subir — com respeito, com segurança, com a dignidade que merece quem nele confia. E que cada viagem futura carregue também um pouco da história de todos os que, como eu, ali viveram instantes simples e, por isso mesmo, eternos.

Manuela Ralha  

Desenho de André Carrilho



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