Crónica | A Era do Grito: Entre o Fast Food da Política e o Jejum da Razão

 "As redes sociais deram o direito de falar a legiões de imbecis que antes falavam apenas ao balcão do bar, sem causar dano à comunidade."

— Umberto Eco

Há um tempo — não tão longínquo como queremos acreditar — em que o disparate tinha o seu lugar próprio: entre o fumo dos cigarros e o estalido dos copos nas tascas de bairro. Era o domínio da sabedoria de balcão, da revolta temperada a vinho tinto e frases feitas, onde o "achismo" vivia sem consequências. Havia boçalidade, sim. Mas também havia contenção. A política era coisa séria, distante, exigente. E as palavras tinham peso.

Hoje, essa linguagem tosca, desinformada e perigosamente simplista não só saiu da tasca como invadiu os palcos do poder. Tornou-se programa, tornou-se bandeira, tornou-se voto.

Vivemos tempos em que já não interessa a verdade, nem o apuramento dos factos. Interessa quem grita mais alto, quem diz exatamente aquilo que queremos ouvir — mesmo que não seja possível, mesmo que não faça sentido, mesmo que seja perigoso.

A política tornou-se fast food: rápida, barata, descartável e nociva. O pensamento crítico foi substituído pela reação automática. A informação deu lugar à manchete emocional. Já não se quer compreender o mundo — quer-se apenas encontrar alguém a quem culpar por ele.

E a culpa, dizem, é sempre dos outros: dos políticos, dos imigrantes, dos vizinhos, dos jornalistas, dos "de cima". Nunca nossa. Nunca da sociedade que deixámos tornar-se isto. Mas a verdade é que a sociedade… somos nós. Somos nós que já não queremos escutar. Somos nós que partilhamos sem ler. Que opinamos sem saber. Que votamos por impulso.

O populismo cresce como erva daninha sobre um terreno seco — e o solo está seco. Está frágil, cansado, desiludido. E é aqui que a História nos devia fazer parar.

Porque já vimos isto antes. Sabemos, ou devíamos saber, que quando o povo está fragilizado, com medo e sem esperança, torna-se terreno fértil para ideias que negam a verdade, que desprezam o saber, que simplificam o complexo e que prometem soluções mágicas para problemas profundos.

Foi assim nos anos 30. Foi assim noutras geografias, noutras décadas. E as consequências foram sempre as mesmas: sofrimento, autoritarismo, destruição.

Hoje, mais do que nunca, assiste-se a um analfabetismo funcional preocupante: lê-se sem compreender, discute-se sem escutar, rejeita-se a dúvida como se fosse fraqueza. O discurso político já não precisa de ser coerente, só precisa de ser viral. E enquanto nos entregamos à lógica do "fast", esquecemos o essencial: pensar demora. Duvidar exige esforço. Refletir implica confronto interno.

E é essa a tristeza que me assalta. Não é o populismo em si — ele sempre existiu. O que dói é que o tenhamos deixado tornar-se mainstream. Que tenhamos baixado tanto o nível da exigência coletiva. Que as instituições tenham perdido o seu valor simbólico e prático. Que a vida pública já não seja vista como espaço de construção comum, mas como um campo de batalha onde cada um só luta pela sua trincheira.

O que vivemos hoje não é uma crise de representação. É uma crise de maturidade democrática. De responsabilidade cidadã. De memória histórica.

E talvez o primeiro passo para sair deste buraco seja esse: recuperar a memória.

Lembrar que a liberdade não é garantida. Que o ruído não é sinónimo de democracia. E que o grito, por mais sedutor que seja, nunca construiu nada de duradouro.

Talvez — e só talvez — ainda estejamos a tempo de escolher outro caminho.

Manuela Ralha



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