Não se “inclui” quem já cá está — uma chamada à responsabilidade
“Não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos.” A frase de Salvador Allende continua tristemente atual. A palavra “inclusão” tornou-se, nos últimos anos, uma presença constante nos discursos políticos, institucionais, educativos e empresariais. Fala-se em incluir crianças com deficiência nas salas de aula, em incluir pessoas com mobilidade reduzida no mercado de trabalho, em incluir cidadãos neurodivergentes na vida cultural e comunitária. Mas raramente se questiona o que isso realmente quer dizer: incluir em quê, em que condições e a partir de que pressupostos?
A própria palavra “inclusão” carrega uma armadilha. Parte da ideia de que alguém está “fora” — à margem, no exterior — e que existe um “dentro” legítimo, funcional e “normal”, que pode ou não abrir as portas, consoante a sua disposição ou boa vontade. Esta lógica é profundamente injusta. Ninguém deve ser tratado como convidado num mundo em que nasceu.
O problema não está na diferença — está na forma como a sociedade a interpreta, organiza e gere. A questão nunca foi “incluir” pessoas com deficiência, mas sim reconhecer que elas sempre cá estiveram, que têm o mesmo direito à cidade, à palavra, à autodeterminação e à presença plena na sociedade. Exigir acesso, visibilidade e respeito não é pedir favores — é reclamar aquilo que sempre lhes pertenceu: o direito de existir com dignidade.
“Inclusão não é sobre abolir as diferenças; é sobre aceitá-las, valorizá-las e, sobretudo, respeitá-las.” Mas o respeito não se proclama — pratica-se. E o que vemos no dia-a-dia é uma exclusão estrutural, muitas vezes mascarada de boas intenções. Uma cidade desenhada para carros e não para pessoas; passeios obstruídos, rampas inexistentes ou inutilizáveis, transportes públicos ainda inacessíveis. A isto junta-se uma comunicação que continua a excluir quem não ouve, quem não vê, quem não lê da forma “padrão”, ou quem precisa de mais tempo para compreender.
A exclusão é também simbólica: quando se fala de “dar voz” às pessoas com deficiência, como se elas não a tivessem; quando se fala sobre elas mas raramente com elas; quando a autonomia continua a ser substituída por tutela e o assistencialismo se disfarça de cuidado. A sociedade continua a ver a deficiência como limitação, em vez de reconhecer que a verdadeira limitação está nas barreiras — físicas, sociais e atitudinais — que impõe.
Importa lembrar que Portugal ratificou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência das Nações Unidas, onde se consagra o respeito pela autonomia, o acesso universal ao meio físico e à informação, a igualdade perante a lei e a participação plena na vida social, cultural, política e económica. Estes não são princípios genéricos — são compromissos legais e éticos. O Decreto-Lei n.º 163/2006, que define o regime jurídico da acessibilidade aos edifícios e espaços públicos, é claro. Mas a sua aplicação continua frágil, desvalorizada e pouco fiscalizada. A legislação existe. O que falta é vontade efetiva de a cumprir.
É certo que muito já se fez — e é justo reconhecê-lo. Houve avanços legislativos, programas de apoio, mudanças na linguagem e na representação pública. Mas também é verdade que falta ainda mais fazer. Sobretudo, falta mudar mentalidades. O maior obstáculo não são os passeios estreitos, as escadas ou os sistemas informáticos inacessíveis — é a ideia profundamente enraizada de que a deficiência é um problema a resolver, uma diferença a atenuar ou um fardo a suportar. Não é. A deficiência é parte da diversidade humana. E respeitá-la não significa compensar, mas capacitar. Não significa “cuidar de”, mas garantir a liberdade de ser.
É urgente abandonar o discurso do assistencialismo e substituir a compaixão paternalista por políticas sérias de autonomia, capacitação e justiça. Não se trata de alinhar expectativas com boas intenções — trata-se de alinhar expectativas com realidade, com verdadeira capacidade de resposta, com compromisso estrutural. A retórica da inclusão não serve se não for acompanhada de mudanças concretas na forma como planeamos as cidades, organizamos os serviços, concebemos a educação, contratamos no mercado de trabalho ou comunicamos com os cidadãos.
O direito ao espaço público, à autodeterminação e ao acesso pleno à sociedade — física, simbólica e digital — não é uma opção política. É um direito humano.
Como afirmou António Guterres, “a verdadeira inclusão significa que todas as pessoas — independentemente das suas capacidades — podem contribuir de forma significativa para a sociedade.” Mas ninguém contribui de forma significativa se vive constantemente a adaptar-se a um mundo que não foi feito para si. A inclusão real exige que seja o mundo a adaptar-se — não às pessoas com deficiência, mas à diversidade humana como um todo.
Falar de acessibilidade não é apenas falar de rampas ou legendas — é falar de dignidade. É falar de justiça social. E sobretudo, é reconhecer que não se “inclui” quem já cá está. Reconhece-se. Respeita-se. Garante-se.
Manuela Ralha

Boa tarde Manuela, estou de acordo com tudo que escreveu..neste momento estou com caso complicado em mão.. já recorri às assistentes sociais da câmara para ver se arranjo solução para meus pais com agravante de ter o meu irmão.Os meus pais com trisumia 21.Pai e mãe com 83 e 81 anos com historial de AVC e diabetes..casa alugada,alterei o contrato de centro de dia para apoio domiciliário.O meu irmão anda na cerci
ResponderEliminarPóvoa informei a cerci que ele só iria no princípio do mês..ele é o meu enfermeiro Os meus país já estão com dependência acentuada.Nao está a ser fácil 🙏 Cumprimentos Manuela Ralha um abraço amigo