Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas
Neste Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, partilho uma reflexão que me toca profundamente.
Celebramos hoje não apenas o território que habitamos, mas o que somos enquanto povo: espalhado pelo mundo, forjado pela travessia, moldado na mistura. Portugal sempre foi maior do que as suas fronteiras — e a alma portuguesa habita em muitos rostos, línguas e histórias.
Mas é com inquietação que, neste mesmo dia, olho para os discursos que se erguem contra os imigrantes, contra a unificação familiar, contra a possibilidade de outros viverem aqui o que nós, durante séculos, procurámos além-mar: um futuro digno.
Somos filhos de muitas viagens
Num país de emigrantes, onde milhões partiram em busca de dignidade e futuro, causa espanto — e tristeza — ver crescer vozes intolerantes contra quem procura em Portugal o mesmo que tantas vezes procurámos noutros cantos do mundo: paz, sustento, um recomeço.
É fácil esquecer que o sangue português não é puro — e ainda bem. Somos o que somos porque durante séculos fomos atravessados por celtas, romanos, suevos, mouros, judeus, africanos, brasileiros, galegos, indianos, timorenses. Porque nos cruzámos, misturámos e acolhemos. Porque Portugal nasceu no encontro, não na exclusão.
A história ensina-nos que quem fecha portas acaba por fechar janelas. Que quem ergue muros, limita o seu próprio horizonte. E que nenhum país se engrandece recusando o direito fundamental à unificação familiar — um direito que é tão elementar quanto o direito a existir com dignidade.
Falar contra a imigração, contra o reagrupamento de famílias, é esquecer os avós que embarcaram num paquete para o Brasil, os tios que apanharam o comboio para França, os filhos que hoje vivem em Londres ou no Luxemburgo. É negar a nossa própria memória.
A migração não é uma ameaça. A intolerância, sim.
E defender a dignidade dos migrantes é, no fundo, defender o melhor de nós.
Manuela Ralha

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