Xira: O Tejo, a Natureza e as Suas Gentes Numa Terra de Tradições

“O Tejo é o pão de cada dia, o caminho, a esperança. E as suas gentes são feitas de rio e de vento.”

Alves Redol

Tive a honra de participar, como oradora convidada, na 4.ª edição do Festival da Barca, no âmbito das Jornadas da Água e da Cultura Oceânica, num simpósio que se revelou um espaço de reflexão e partilha sobre a importância dos territórios ribeirinhos e das comunidades que os habitam. A minha intervenção centrou-se no tema “Xira: o rio, a natureza e as suas gentes numa terra de tradições”, procurando dar voz a uma identidade profundamente marcada pela presença do Tejo.

Falar de Vila Franca de Xira neste contexto é reconhecer o papel essencial que o rio sempre desempenhou ao longo da história do concelho. Aqui, o Tejo não é apenas um cenário; é protagonista. Foi e continua a ser fonte de vida, estrada líquida, via de comunicação e de comércio, sustento de gerações de pescadores e barqueiros, inspiração de escritores e artistas, mas também espaço de resistência, de festa e de futuro. Foi o Tejo que moldou a paisagem, que sustentou a economia local e que continua, ainda hoje, a ser motor de desenvolvimento.

O Tejo é a espinha dorsal de Vila Franca de Xira. Mas o rio não se compreende sem as suas gentes. As populações ribeirinhas são a alma viva do Tejo. Entre elas, destacam-se os avieiros, vindos da Praia da Vieira, que se instalaram sazonalmente nas margens do rio, em casas de madeira sobre estacas, vivendo da pesca. Eram os “nómadas do rio”, como lhes chamou Alves Redol, comparando-os aos ciganos da terra. Ainda hoje, alguns avieiros continuam a pescar, resistindo no tempo e mantendo viva uma tradição que faz parte da identidade do concelho.

Após a requalificação dos antigos Bairros Avieiros, as casas palafitas desapareceram, mas permanece a memória de outros tempos. No território de Vila Franca de Xira, essa memória está presente em três núcleos distintos: em Vila Franca de Xira, no Esteiro do Nogueira; em Alhandra, junto ao cais e à Rua dos Avieiros; e na Póvoa de Santa Iria, onde o antigo cais palafítico e a antiga Praia dos Pescadores evocam esse modo de vida. Estas comunidades criaram cultura própria, enriqueceram a gastronomia, marcaram o quotidiano das margens e deixaram um legado que é hoje parte do património vivo do concelho.

Outro elemento identitário profundamente ligado ao Tejo é a comunidade dos varinos e varinas. Muito mais do que o nome das emblemáticas embarcações de proa redonda e casco colorido, os varinos são uma população ribeirinha oriunda, sobretudo, da Murtosa e de outras zonas da Beira Litoral, que migrou para Vila Franca de Xira entre o final do século XIX e o início do século XX. Muitos fixaram-se na cidade e dedicaram-se à venda de peixe e a actividades ligadas ao comércio fluvial, desempenhando um papel essencial na economia local. As varinas, com os seus trajes característicos, tornaram-se figuras icónicas da cultura urbana e ribeirinha, integrando-se na comunidade local e contribuindo para o património cultural do concelho.

As embarcações que utilizavam — os barcos varinos — eram igualmente símbolos desta vivência: robustos, coloridos, com grande capacidade de carga, transportavam mercadorias e pessoas ao longo do Tejo, desde o litoral até às lezírias. Eram peças fundamentais no abastecimento das populações e na circulação de produtos agrícolas, sal, lenha ou pescado.

O concelho de Vila Franca de Xira é singular pela forma como conjuga características urbanas e rurais. Está às portas de Lisboa, mas preserva a alma do Ribatejo. Do estuário às lezírias, dos mouchões aos montes, encontra-se aqui um mosaico natural e humano de enorme riqueza. Esta diversidade não é apenas paisagística — é cultural, social e histórica.

Muitas das localidades do concelho — como Vila Franca de Xira, Alhandra, Alverca, Sobralinho e Póvoa de Santa Iria — desenvolvem-se junto ao Tejo e foram, ao longo dos séculos, profundamente moldadas pela presença do rio. Outras, como Forte da Casa, Vialonga, Castanheira do Ribatejo e Calhandriz, embora mais interiores, também sentiram os efeitos da sua influência — seja através da atividade económica, das ligações viárias, ou mesmo das consequências de fenómenos naturais como cheias e tempestades. Para o bem e para o mal, o Tejo sempre tocou, direta ou indiretamente, estas comunidades.

Momentos como o Ciclone de 1941, que causou danos materiais e humanos significativos, ou as Cheias de 1967, que deixaram um rasto de destruição e luto, são marcas profundas na memória coletiva destas populações. São testemunhos de uma convivência complexa com o rio, que ora oferece, ora desafia. E, no entanto, essa resiliência moldou comunidades solidárias, resistentes e profundamente ligadas ao seu território.

Mas há também que destacar a extraordinária riqueza ecológica do Tejo, nomeadamente dos seus mouchões — pequenas ilhas sedimentares que desempenham um papel crucial na conservação da biodiversidade e no equilíbrio ecológico do estuário. Estas zonas húmidas são refúgio de aves migratórias, tampões naturais contra cheias e elementos fundamentais de um ecossistema único na Europa.

Entre as embarcações mais emblemáticas da tradição ribeirinha está o Barco Varino Liberdade, construído em 1945 com o nome “Campino”, mais tarde afundado e recuperado em 1988. Hoje, é um verdadeiro museu flutuante, mas também uma embarcação ativa, ao serviço do turismo fluvial e da valorização ambiental e patrimonial do Tejo.

Os passeios a bordo do Liberdade permitem aos visitantes conhecer de perto a Reserva Natural do Estuário do Tejo, uma das mais importantes zonas húmidas da Europa. Durante a navegação, é possível observar aves migratórias, como flamingos, garças, patos, maçaricos ou pilritos, a alimentarem-se nos lodos e a repousarem nos mouchões. É uma experiência que alia natureza, cultura e tradição, e que sensibiliza para a importância de proteger este ecossistema tão sensível e tão valioso.

O centro EVOA – Espaço de Visitação e Observação de Aves cumpre também essa missão de educação e conservação ambiental, permitindo conhecer melhor a biodiversidade do estuário e reforçar a consciência de que cuidar do Tejo é também cuidar do oceano, num sistema interdependente onde tudo se liga.

As lezírias, por sua vez, são outro elemento definidor do território. Estes campos férteis, dedicados à agricultura e à criação de gado, são também palco de uma tradição profundamente ribatejana: a festa brava. O campino, o touro e o cavalo formam aqui uma tríade cultural que se manifesta nas festas do Colete Encarnado e da Feira de Outubro. O campino, com a sua jaqueta curta, boina verde e vara comprida, é figura emblemática do Ribatejo e guardião da lezíria.

Vila Franca de Xira é também terra de cultura e de história. Os núcleos antigos das localidades guardam memórias arquitetónicas e sociais, enquanto as quintas apalaçadas recordam a presença de nobres e fidalgos, atraídos pelo bom ar e pela proximidade à corte. As Linhas de Torres Vedras, construídas durante as Invasões Francesas, testemunham o papel estratégico da região na defesa do país.

Na literatura, o concelho está ligado a nomes incontornáveis do Neo-Realismo, como Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. O Museu do Neo-Realismo, instalado na cidade de Vila Franca de Xira, é hoje uma referência nacional e internacional, preservando o legado destes autores e de um movimento literário e político que marcou o século XX português.

Também o desporto desempenha um papel relevante. Alhandra é reconhecida como berço dos desportos náuticos no país, tradição que se prolonga em Vila Franca e na Póvoa de Santa Iria, onde o Tejo serve de cenário para a prática de remo, canoagem e outras modalidades. Estas localidades continuam a projetar o concelho como referência nesta área.

Também a natação faz parte da alma ribeirinha de Vila Franca de Xira, com especial destaque para Alhandra, onde o Tejo foi, durante séculos, campo de iniciação, aventura e superação. Muitos de nós aprendemos a nadar nas suas águas, mergulhando desde crianças no seu caudal largo e desafiante. O Tejo era, e é, oponente de respeito — calmo à superfície, mas imprevisível e profundo. Levou consigo, ao longo do tempo, jovens incautos, vencidos pela força das correntes ou pela imprudência da juventude. As suas margens são também lugar de memória e saudade.

Mas foi desse mesmo rio que emergiram histórias de coragem e resistência, como a do lendário Baptista Pereira, natural de Alhandra, conhecido como “o homem das travessias”. Crescido a nadar contra a corrente do Tejo, moldou ali o seu corpo e espírito para desafios maiores. Em 1959, conquistou um feito extraordinário: a travessia do Canal da Mancha, concluída em 14 horas e 8 minutos, sob duras condições. Tornou-se símbolo nacional de força e determinação, levando consigo, no corpo e na alma, o Tejo que o formou.

A história de Baptista Pereira é a história de muitos que, a partir das margens de Alhandra, descobriram no rio um mestre exigente, mas generoso. Um espaço onde se aprende a respeitar os limites, a conhecer o medo, a confiar na coragem. O Tejo, nesta vertente desportiva e humana, é mais do que paisagem: é forja.

Nos últimos anos, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira tem desenvolvido um trabalho notável na requalificação da frente ribeirinha. Ao transformar margens degradadas ou inacessíveis em zonas de lazer e usufruto coletivo, o concelho recuperou o seu rio e devolveu-o às pessoas. Foram criados passadiços e ciclovias que ligam as várias freguesias do concelho, promovendo mobilidade suave, contacto com a natureza e uma nova vivência urbana. Parques como o da Póvoa de Santa Iria, o dos Moinhos da Póvoa ou o Linear do Estuário do Tejo, em Alverca e no Sobralinho, são hoje espaços de encontro, desporto, cultura e contemplação.

Mais do que intervenções urbanísticas, estas obras representam um reencontro com o rio — que durante décadas foi visto como barreira ou ameaça — e afirmam o Tejo como lugar de convívio, bem-estar e orgulho coletivo. A ligação ciclável e pedonal já permite seguir, sem interrupções, desde o Concelho de Vila Franca de Xira até Loures e ao Parque das Nações, criando um corredor verde que aproxima comunidades e reforça a coesão territorial. 

Ao devolver o rio às gentes, Vila Franca de Xira não só protege e valoriza o seu património natural e cultural, como também abre novas oportunidades de turismo, lazer, desporto e desenvolvimento sustentável. Reforça a sua identidade local e projeta-se com confiança para o futuro.

Celebrar a água e a cultura oceânica é, para nós, celebrar o rio que nos dá vida. O Tejo mostra-nos como a água é património natural, cultural e humano. Como pode ser memória e futuro ao mesmo tempo. Como une a terra ao mar, o local ao global.

Vila Franca de Xira é um concelho onde o Tejo não é apenas cenário: é protagonista. É ele que une passado, presente e futuro. É esta a essência de Xira: o rio, a natureza e as suas gentes, numa terra de tradições.

Manuela Ralha



Comentários