Engano ou estratégia? O caso Ventura e a viagem do Presidente.
No dia 10 de setembro de 2025, a Comissão Permanente da Assembleia da República autorizou a deslocação oficial de Marcelo Rebelo de Sousa à Alemanha para participar no Bürgerfest, uma iniciativa promovida pelo Presidente alemão e destinada a reforçar o diálogo cívico com os cidadãos. A votação, que habitualmente decorre de forma consensual, foi marcada por um facto insólito: todos os deputados do Chega (58 presentes) votaram contra.
A posição do partido foi justificada por André Ventura com base numa interpretação depreciativa do evento, que descreveu como uma “espécie de festival de hambúrgueres”. Essa formulação resultou de uma tradução errada do termo alemão Bürgerfest, confundindo “cidadãos” (Bürger) com “hambúrgueres”. Mas o episódio não ficou por aí. Logo após a votação, Ventura divulgou um vídeo em tom agressivo, ridicularizando a deslocação presidencial e denegrindo a imagem de Marcelo Rebelo de Sousa. Ou seja, não se tratou apenas de uma apreciação equivocada: houve uma escolha deliberada de explorar o erro para lançar um ataque político direto.
Perante a polémica, Ventura viria a admitir que “se enganou como toda a gente”. Essa justificação procurou diluir responsabilidades, transformando o episódio em erro coletivo. Mas a realidade mostra algo diferente: a disciplina de voto foi total e a linha do partido foi seguida sem espaço para qualquer dissidência. Se todos votaram “enganados”, isso significa que nenhum deputado fez uma avaliação autónoma da importância diplomática da visita. É neste ponto que surge a ideia de “culto do líder”: a decisão não resultou de reflexão individual, mas de seguidismo em bloco.
A reação política e mediática foi imediata. Adversários ironizaram a confusão linguística, acusando Ventura de falta de rigor e precipitação, e a comunicação social salientou que o vídeo tinha sido entretanto apagado, num reconhecimento tácito da gafe. Nas redes sociais, as críticas multiplicaram-se, oscilando entre a incredulidade e a ridicularização. Mesmo assim, o episódio cumpriu um objetivo: colocou novamente Ventura e o Chega no centro do debate público.
Isto levanta a questão: terá sido realmente um lapso ou mais uma ação calculada? A verdade é que este caso encaixa num padrão já conhecido da estratégia comunicacional de André Ventura. Ao longo da sua carreira, multiplicaram-se episódios de declarações polémicas sobre minorias étnicas, ataques duros à Justiça, confrontos verbais no Parlamento e até contradições públicas sobre temas tão sensíveis como a vacinação contra a Covid-19. Em todos estes momentos, a lógica foi semelhante: gerar choque e mediatismo imediato, relativizar ou recuar quando necessário, mas já depois de garantir o impacto desejado.
Neste sentido, o “festival de hambúrgueres” não é apenas uma gafe linguística. É mais um episódio de uma prática consistente: transformar erros, exageros e provocações em instrumentos de comunicação política. O ganho é claro — manter a base eleitoral mobilizada e garantir presença constante na agenda mediática. A perda, embora real em termos de credibilidade junto de setores mais moderados, é compensada pela visibilidade e pela consolidação de uma imagem de combatividade contra o sistema.
Manuela Ralha
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